sábado, setembro 08, 2012

Para quando a revolução?

 

Artigo 21.º da Constituição da República Portuguesa:

Direito de resistência
Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.


Perante um governo que se limita a assaltar repetidamente os cidadãos, renunciando aos seus direitos e renegando as ideias e políticas que foram sufragadas em eleições, assim como ao respeito pela constituição do estado de direito, só resta aos patriotas uma solução: resolver o problema de forma rápida e eficaz!

Postais das Selvagens


15 – Pombo correio

A armadilha usada para capturar os pombos (junto à mesa) e pombos por
perto, nas rochas.

Apesar de ficar a 163 milhas náuticas da Madeira, ou seja duzentos e muitos quilómetros, por vezes aparecem na Selvagem Grande pombos domésticos de competição. As pobres aves devem ser largadas em competições na Madeira e devido aos ventos empurradas para o mar alto, acabando por ter a sorte de vir parar às Selvagens, de outra forma acabariam por morrer no mar alto.
Desabituado de ver pombos, depois de algum tempo nas ilhas, demoro sempre alguns segundos a localizar os pombos como estando mesmo aqui e não numa qualquer praça de Lisboa. Depois de um dia ou dois completamente perdidos, os pombos acabam por perceber onde na ilha se encontram as pessoas e começam a rondar a casa da reserva na esperança de encontra comida e, sobretudo, água doce. Jaques, o vigilante, tenta sempre capturar os pombos, para os levar de volta à Madeira e aos seus donos, que por esta altura possivelmente pensam já que os seus animais estão irreversivelmente perdidos. Começamos por colocar alguma água e milho perto de casa, para os ir habituando, e os pombos começam a vir cada vez mais perto. Eventualmente, montamos a típica armadilha para pássaros: uma caixa virada ao contrário, com os dos lados levantado por uma pedaço de madeira que está amarrado a um fio comprido. Sob a caixa colocamos uma mão cheia de milho e esperamos que eles caíam na nossa armadilha. Eles aproximam-se cautelosamente, vão bicando o milho mais afastado da caixa, mas acabam por não resistir ao monte de deliciosas sementes que os espera sob a caixa, altura em que puxamos a corda e apanhamos mais um pombo.
Só de uma vez apareceram na ilha oito pombos, que fomos apanhando um por um. Infelizmente um deles morreu, possivelmente debilitado pela fome, sede e pela dureza da viagem até à ilha, mas os outros ganharam uma verdadeira lotaria, conseguiram sobreviver ao mar alto e encontrar água doce e comida fácil de que viveram por uns dias até voltarem a casa no próximo barco. Não duvido que o dono dos pombos ficou igualmente satisfeito com o nosso novo hobby de caça ao pombo!

quinta-feira, setembro 06, 2012

Postais das Selvagens


14 - Tem ovo?

Ninho de alma-negra identificado por uma placa cor-de-laranja
numerada. A diminuta entrada não é de todo óbvia nesta fotografia.

A partir da primeira semana de Julho começamos a vistoriar diariamente os ninhos das almas-negras. As aves estão nesta altura no final da incubação e queríamos saber exactamente a data de eclosão das crias pelo que era necessário visitar todos os dias os ninhos, por um lado para saber se já tinham eclodido e por outro lado para confirmar que a postura não se tinha perdido por predação ou por abandono dos pais.
As almas-negras são lindíssimas, com a sua plumagem escura, quase preta, e o bico escuro e aguçado. Felizmente para os nossos dedos, este bico, apesar de aguçado, é muito mais pequeno do que o das cagarras, fruto da alma-negra ser uma ave substancialmente mais pequena. Digo felizmente porque para determinar se a ave estava ainda a incubar ou se a cria já tinha nascido, torna-se necessário por a mão dentro do ninho, mas ao contrário do que acontecia com as cagarras, aqui não podemos usar luvas pois de outra forma não teríamos a sensibilidade necessária para sentir o pequeno ovo sob a ave.
Convém explicar que os ninhos das almas-negras são orifícios entre pedras, com uma entrada estreita que mal dá para colocar a nossa mão. Requer um pouco de coragem enfiar a mão num buraco escuro, sabendo à partida que lá dentro está um pequeno animal a incubar, que para defender a prole vai recorrer à sua principal arma, o bico aguçado de ponta retorcida com que pescam peixes no mar alto. Algumas aves são mais calmas e deixam-nos colocar os dedos sobre elas para sentir o ovo sem recorrerem à bicada, ficando simplesmente a olhar para nós com ar reprovador. Outras, mais mal-dispostas, desatam a bicar os nossos dedos para deixar claro que não admitem aquele tipo de intromissão indevida nas suas vidas. Ao fim de algumas dezenas de ninhos, inevitavelmente, as nossas mãos pingam já algum sangue em dois ou três sítios diferentes.
Como a necessidade aguça o engenho, e a dor ainda o aguça mais, eventualmente comecei a usar um pequeno pauzinho comprido que introduzia cuidadosamente no ninho para desviar suavemente a ave de forma a conseguir avistar o ovo. Claro que isto só era possível nos ninhos mais abertos, ou nos casos em que era possível desviar algumas pedritas para espreitar para o interior, nos restantes casos era mesmo inevitável enfiar a mão lá dentro, aguentar as bicadas furiosas e tentar não imaginar cenas de filmes em que alguém enfia a mão num buraco escuro sem saber que lá dentro o espera uma enorme aranha, uma serpente venenosa ou uma profusão de vários vermes, insectos e outros animais rastejantes de índole desagradável, como acontecia num dos filmes do Indiana Jones.

quarta-feira, setembro 05, 2012

Postais das Selvagens


13 - Invasão francesa

Jantar com os visitantes franceses.

Enquanto caminhamos pela ilha o mar é sempre o elemento dominador da paisagem. Lá está ele a sul, a norte, a este e a oeste. Pode parecer estranho estar a reiterar este facto óbvio da paisagem que circunda qualquer ilha, mas para um habitante do continente esta é uma experiência nova. O azul do mar é apenas quebrado pelas silhuetas esbatidas da Selvagem Pequena e do Ilhéu de Fora, na direcção sudoeste. A outra quebra da monotonia do horizonte eram os ocasionais barcos que passavam ao largo da ilha. Mais longe via-se por vezes um cargueiro, na sua rota calma em direcção à Europa ou a mares mais distantes, mais perto vinha por vezes algum veleiro que vinha fazer escala na Selvagem Grande durante a viagem para as Canárias, que podiam ser destino ou apenas a escala seguinte.
Nas primeiras semanas na ilha vi passarem por lá velejadores russos, austríacos, belgas e franceses, mas foram estes últimos que mais saudades deixaram. O barco, chamado Filou, era tripulado por estudantes de medicina franceses, que decidiram adiar por um ano o seu curso e velejar pelo mundo. Vindos da Europa, vieram passar dois dias nas Selvagens, seguindo depois para as Canárias, Cabo Verde, Brasil e Argentina, estando ainda por decidir se arriscariam ou não dobrar o Cabo Horn. Extremamente simpáticos, foram nossos companheiros de jantares e noitadas de cartas enquanto estiveram na ilha. Eles eram sete, nós apenas três, durante uns dias foi uma autentica invasão francesa na Selvagem Grande.
Estes franceses, tal como os outros visitantes e tal como eu próprio fiz mais tarde, aproveitaram a estadia na ilha para darem uso ao marco de correio mais meridional de Portugal. É verdade, a Selvagem Grande tem um marco de correio e funciona mesmo como posto dos correios, com selos, carimbos próprios e um típico marco de correio vermelho. Claro que as cartas e postais têm de esperar calmamente pela próxima visita do patrulha da marinha, mas a seu tempo chegarão ao seu destino como em qualquer outro marco dos correios.

terça-feira, setembro 04, 2012

Postais das Selvagens

12 - Selvagem

A Selvagem a vigiar o mar sobre a Enseada das Cagarras.

Nos filmes do oeste, entre vaqueiros e índios, era habitual surgir a expressão "cidade de um só cavalo", como termo pejorativo para pequenas cidades perdidas no meio do deserto, aquelas que nos filmes os índios atacavam e os vaqueiros salvavam. Pois a Selvagem Grande é um ilha de um só cão. Esse cão, aliás uma cadela, é a Selvagem. A homónima da ilha é uma cadelinha de pelo malhado preto e branco, sem nenhum raça óbvia, que dá as boas-vindas aos visitantes da outra Selvagem, a ilha, desde 2005. A Selvagem canina veio para a ilha em 2005, ainda cachorra, e desde aí viveu sempre na ilha, apenas com uma curta ida ao Funchal por motivos médicos no ano passado. Nota-se que ela não sabe ser cão. Talvez por ter sempre vivido entre pessoas, quando mostra os dentes está-se a rir, como uma pessoa, não pretendendo ameaçar ninguém com o vislumbre dos seus caninos, e quando não está a comer ou a pedinchar bolachas e queijo, ela gosta mesmo é de se deitar ao sol, a mirar o mar, pronta a avisar com alguns latidos a chegada de algum barco. Na verdade a Selvagem não é um cão de guarda muito bom, não é incomum ser ela a última a notar a chegada de alguma embarcação e nem sequer sabe guardar a sua comida, que geralmente acaba comida pelas lagartixas que se juntam às dezenas para roubar a ração ou outra comida directamente do prato da Selvagem.
Quando subimos ao planalto, para visitar os ninhos das aves, a Selvagem vem connosco, subindo com invejável facilidade a subida que a nós tanto custa. Que maravilha ter quatro patas e menos cinquenta ou sessenta quilos de peso! Não sei se ela sempre se portou bem junto das aves, ou se aprendeu ainda pequena o quanto pode doer uma bicada de uma cagarra mal disposta, mas enquanto trabalhamos a Selvagem limita-se a descansar na sombra de algum arbusto, sempre de olho na possibilidade de ser hora de voltar a casa que é sem dúvida a parte da ilha que ela mais gosta.
A Selvagem tem medo do mar, o que é uma fobia algo desagradável para quem vive numa ilha de pequenas dimensões. Ainda pequena, a Selvagem foi apanhada por uma onda, tendo apanhado um grande susto do qual só saiu com vida por sorte e desde aí mantém sempre uma distância confortável do mar, quer este esteja calmo ou borrascoso. Pode ter medo do mar, ser a última a ver os barcos que chegam à ilha, e não conseguir defender a sua comida das lagartixas, mas é impossível não nos apaixonar-mos pelo focinho felpudo e pelos olhos meigos e castanhos da principal habitante de quatro patas da Selvagem Grande.

Postais das Selvagens


11 - Endémicos ou não

A osga Tarentola boettgeri (fotografia do meu colega Cristóbal Pérez)

Outra das curiosidades da ilha são as osgas. A osga que aqui encontramos, da espécie Tarentola boettgeri é um endemismo da macaronésia, região que inclui os arquipélagos das Canárias, Madeira e Açores. Na verdade a sua distribuição é muito mais restrita que isso, esta espécie existe apenas nas Selvagens e na ilha canária de El Hierro. Ao contrário das lagartixas, as osgas são muito mais discretas. Geralmente passam o dia escondidas debaixo das pedras, só saindo à noite, mas se começarmos a virar pedras em algumas partes da ilha rapidamente damos com um destes patuscos animais, de corpo escamoso escuro e grandes olhos amarelados. Como todas as osgas, têm os dedos enrugados de forma a funcionarem como ventosas para melhor treparem pedras e muros. As osgas não são os únicos animais endémicos das Selvagens, contando-se nesta lista também o escaravelho Deuchalion oceanicum e a borboleta Agrotis selvagensis. Não endémico, mas muito mais conspícuo do que estes animais, falta-me aqui falar do corre-caminhos, uma pequena ave da família das petinhas e alvéolas que ocorre nas ilhas e é facilmente avistada a esvoaçar e saltitar sobre as ilhas. Os corre-caminhos são bastante confiantes e não é difícil atraí-los com pedacinhos de pão ou de arroz, ou até mesmo uns restinhos de salsichas ou de atum da última refeição.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Postais das Selvagens


10 - O planalto à noite

À noite, no planalto, somos bombardeados por cagarras e outras aves.

Sobre as noites na Selvagem Grande, já referi que eram embaladas pela ondulação e despertadas pela animação das cagarras, mas algumas noites eram também dias de trabalho. Como a grande maioria das cagarras só vem a terra de noite, a probabilidade de encontrar indivíduos não reprodutores é bem maior de noite. Amarinhávamos a subida à luz da lua, ou em noites mais escuras à luz da lanterna e com algum cuidado chegávamos ao planalto sem percalços. Numa noite de grande actividade o planalto à noite é muito, muito diferente do dia. Centenas e centenas de cagarras voam, rastejam e saltitam por todo o lado, estamos constantemente a ser bombardeados por carragas, almas-negras e roquinhos que passam a rasar as nossas cabeças, por vezes batendo mesmo ao de leve no nosso corpo. Para tentar capturar os indivíduos não reprodutores, caminhamos ao longo dos muros, tal como fazemos de dia, mas com lanterna e camaroeiro em riste, prontos a caçar as cagarras mais incautas. Tal como em tantas coisas, esta actividade tem um truque: caminhar a favor do vento, de forma a dificultar a descolagem das cagarras que precisam de apanhar vento contra para subir rapidamente. Mas não basta apanhar qualquer cagarra, entre as centenas e centenas que por ali andam temos de encontrar as que têm uma anilha cor-de-laranja numa pata e um aparelho de seguimento na outra pata. Apanhar uma destas cagarras numa noite de trabalho já é um excelente resultado. Estas aves são excepcionalmente fiéis ao local onde nascem e muitas vezes os animais não-reprodutores são jovens que nasceram à quatro ou cinco anos e estão agora a voltar pela primeira vez à colónia, onde se irão começar a reproduzir nos anos seguintes. Incrivelmente, elas são geralmente apanhadas a poucos metros do ninho onde nasceram.

domingo, setembro 02, 2012

Postais das Selvagens


9 - De noite ou debaixo de água

A maravilhosa água da Enseada das Cagarras.

Nas selvagens nem toda a gente consegue dormir bem. As cagarras, que lá existem às dezenas de milhares, são muito ruidosas, sobretudo ao anoitecer e ao amanhecer. Quer isso dizer que aqueles de sono mais leve frequentemente acordam por volta das cinco horas da manhã, altura em que as cagarras começam a sair para o mar para mais um dia de faina, fazendo questão de o anunciar ruidosamente, no seu zurrar coaxado repetido em milhares e milhares de bicos. O mar, no seu eterno duelo com as rochas, mantém também um burburinho constante, mas esse parece-me a mim mais embalo que despertador.
O mar é também um dos grandes entretens de quem faz estadias nas Selvagens. Não só agracia o olhar com o seu azul profundo e a eterna labuta das ondas, como nos oferece ali mesmo ao pé uma infinidade de cores e formas dos muitos peixes e invertebrados marinhos que abundam nas enseadas da Selvagem Grande. Geralmente era na Enseada das Cagarras, logo ali junto à casa da reserva, que eu passei horas e horas de óculos de mergulho e tubo de respiração postos, a nadar por entre as pedras a apreciar as vista submarinas, sentindo-me como que um pássaro a planar nos seus sobre os habitantes do mar. Por onde começar? Só quem já mergulhou em águas tão límpidas e pristinas como as das Selvagens podem imaginar a prodigiosa abundância de peixes. Desde as espécies nossas conhecidas do prato, como os sargos e as garoupas, aos vários cabozes, às tainhas, e a dezenas de outras espécies. Por todo o lado nadavam os coloridos peixes-verdes, e os bodiões, os machos mais cinzentos, as fêmeas vermelhas e amarelas. Um pouco mais longe das pedras encontramos cardumes de pequenas barracudas, de preguiçosas e de facaios, estes últimos muito engraçados com as suas barbatanas pretas e brancas. Mais junto ao fundo nadam as castanhetas, escuras com tons de azul quase florescente, e os porquinhos, pequenos peixes-balão de forma curiosa, cabeçudos e com uma lista clara lateral. Insistindo todos os dias, fui juntando novas espécies à minha lista, incluíndo a truta-verde, a salema, o lagarto-do-rolo, o peixe-cão, o vaso, o peixe-agulha, a boga, a dobrada e o rocaz e por vezes dava por mim no meio de enormes cardumes de minúsculos guelros. Lembro-me agora, que o assunto são os peixes e me sinto quase um novo padre António Vieira, que me esqueci de referir os peixes que pude ver a bordo do Cuanza, durante a viagem. Não foram muitos, mas a certo ponto avistamos um cardume de gaiados, pequenos atuns que no continente são mais conhecidos como bonitos, mas o mais engraçado foi mesmo o peixe-voador que vi saltar das águas junto ao barco e voar umas boas dezenas de metros até voltar a mergulhar nas ondas.

sábado, setembro 01, 2012

Postais das Selvagens


8 - A história das Selvagens

Colunas de basalto que evidenciam o vulcanismo
 submarino que originou a ilha da Selvagem Grande.

Voltados à base, na casa da reserva junto ao mar, dedicamos o nosso tempo a preparar a refeição, mais uma de tantas refeições deliciosas, comidas entre conversa amena e vistas deslumbrantes do oceano Atlântico. Não há nada como a maresia para abrir o apetite, e ninguém passou por lá fome durante a minha estadia, muito longe disso! Há noite, entrego o meu tempo à leitura de alguma da literatura disponível na ilha, nomeadamente uma publicação sobre as Selvagens, produto do trabalho dos técnicos do Parque Natural da Madeira. Aprendo então um pouco sobre a história e a pré-história destas ilhas únicas. As Selvagens são ilhas vulcânicas, resultantes da agitada vida interior do nosso planeta, são fruto do trabalho de antigos vulcões submarinos, pelo que nunca estiveram em contacto com o continente africano. Nos idos tempos do Miocénico, já lá vão uma bela mão cheia de milhões de anos, as ilhas estiveram submersas, devido à subida do nível do mar, tendo-se formado nessa altura as rochas calcárias que se podem encontrar em várias partes da ilha, resultado da lenta sedimentação de pequenos animais com concha nos mares primitivos. Depois de feito o trabalho geológico do planeta, coube ao homem descobrir as ilhas. Oficialmente as Selvagens foram descobertas pelo navegador português Diogo Gomes, em meados do século XV. No entanto, existem relatos prévios que provam que a existência destas ilhas era conhecida desde a antiguidade, tendo mesmo recebido os nomes de Heres e Antoloba pelos cartógrafos gregos. Numa carta redigida em 1345, e escrita por D. Afonso IV ao Papa Clemente VI era já narrada uma expedição portuguesa às Canárias em que era feita referência às Selvagens.
Depois de descobertas e re-descobertas, por ventura várias vezes, as Selvagens foram finalmente incorporadas na Ordem de Cristo, durante o reinado de D. Manuel, tido sido feitas concessões destas ilhas a fidalgos e guerreiros que se distinguiram por feitos de armas e de descobertas. A partir do século XVI passaram para as mãos de privados, tendo então passado de mão em mão, por herança, venda ou doação, até à segunda metade do século XX. As ilhas foram ocasionalmente alvo de tentativas de colonização, sempre falhadas devido à falta de água doce, e nelas foram introduzidas cabras e coelhos, a que se juntaram os ratos que ali chegaram clandestinamente. Durante séculos foram exploradas para recolha da urzela, um líquen que era utilizado para produzir uma tinta púrpura usada em tecidos e papel, assim como de barrela, plantas usadas para o fabrico de sabão. As ilhas tinham também bom rendimento da pesca e salga de peixe, da recolha de guano das aves marinhas para fertilizante, e da captura de cagarras jovens cuja carne era muito apreciada e as penas usados no fabrico de colchões. Em 1971 as ilhas tornaram-se propriedade do estado português, tornando-se na primeira Reserva Natural do país.

sexta-feira, agosto 31, 2012

Postais das Selvagens


7 - Das cagarras

O biólogo e a cagarra.

Voltando ao ninho da cagarra, quando verificamos ser um indivíduo diferente, chega a altura de o retirar do ninho... Convém aqui explicar que as cagarras têm um bico forte e aguçado, recurvado na ponta como um anzol. É o resultado perfeito da evolução que seleccionou os bicos mais eficientes para apanhar peixe no alto mar. Esses bicos são igualmente eficazes a cortar pedaços de dedos dos mais incautos, pelo que convém calçar uma luva resistente antes de afundar o braço no ninho da cagarra. É exactamente pelo bico que convém agarrar a ave, puxando depois com algum cuidado, e para natural indignação do animal, até a termos fora do ninho. Algumas aves ficam sossegadas, aceitando com a sua filosofia natural o incómodo, mas outras bufam, zurram, esperneiam, enfim lutam com as suas armas possíveis para que as deixem em paz. Mais bicada menos bicada acabamos por encontrar uma posição confortável para ave e biólogo. Depois chega a altura de ler o número da anilha ou, caso ainda não tenha uma, anilhar a ave com uma anilha nova. Acabado este encontro imediato do terceiro grau, a ave é devolvida ao ninho, até porque os ninhos vazios são facilmente predados pelas gaivotas que chamariam ao ovo solitário um proverbial figo.
O mesmo processo repete-se junto ao vários ninhos, cerca de três centenas, que são alvo de monitorização. Algumas dezenas de ninhos de alma-negra são também alvo da mesma atenção, sendo que essa aves são mais pequenas e têm um bico proporcionalmente menos ameaçador. Outras actividades incluem retocar a pintura nos números dos ninhos e procurar indivíduos que têm acoplados aparelhos que registam a sua localização através da duração do dia ou do contacto com satélites de posicionamento global. Estes aparelhos extraordinário permitem conhecer, dia a dia, em alguns casos hora a hora ou mesmo minuto a minuto as viagens destas aves pelos oceanos. Muitas destas aves que aqui manuseamos passaram o inverno no Atlântico Sul, ao largo do Brasil ou da África do Sul ou, em alguns casos, dobraram mesmo o Cabo da Boa Esperança entrando no Índico até às costas de Moçambique e Madagáscar. Saberiam Vasco da Gama e Pedro Alvares Cabral que as suas viagens de descoberta eram já praticadas à séculos e milénios por estas aves, que nascidas na Selvagem Grande são tão portuguesas como os nossos famosos navegadores? Suspeitaria Camões que o seu Adamastor era já velho conhecido da cagarra?

quarta-feira, agosto 29, 2012

Postais das Selvagens


6 - Na Selvagem Grande também se trabalha

Ninho de cagarra com o número 43, e com a cagarra "escondida com o
rabo de fora". Fica o desafio de encontrar o bicho: onde está a cagarra?

Feito o reconhecimento da ilha, chega a altura a de começar a trabalhar. Os ninhos de cagarras e de almas-negras nos muros são seguidos cuidadosamente para determinar quem são os pais e qual o destino do ovo, e da eventual cria que lá vai nascer. Chegados à beira de um ninho, identificado por um número escrito a verde, amarelo, branco ou azul numa pedra próxima, temos de olhar para dentro do buraco e tentar perceber se a ave que lá se encontra é já conhecida ou não. A quando da primeira visita aos ninhos, os meus colegas pintalgaram as aves com marcadores verdes, pelo que se a ave tiver o peito ou a cauda esverdeada, trata-se de uma ave já conhecida naquele ninho. Se a ave mantiver a sua plumagem imaculada será um indivíduo novo, pelo que temos de o puxar para fora do ninho para o identificar, caso já tenha anilha, ou para o anilhar caso seja uma ave nova. Paro aqui um momento para ponderar um pouco este prodígio que é a anilhagem de aves. Ainda há não muito tempo, no século XVIII, o grande naturalista Lineu acreditava que as andorinhas passavam o inverno enterradas no fundo dos lagos e as lavercas dormiam o longo inverno setentrional debaixo das raízes das plantas. Eram já bem conhecidos os padrões de aparecimento e desaparecimento das aves, que chegavam na primavera e desapareciam no final do verão. Contudo, poucos, se é que alguns, suspeitavam que estas pequenas aves iam passar o inverno a centenas ou milhares de quilómetros de distância, na outra extremidade das suas rotas migratórias. Em Inglaterra acreditava-se que os gansos-de-faces-brancas nasciam dos percebes no outono, o resultado de uma imaginação prodigiosa e de uma suposta semelhança entre o bico das aves e a concha do animal marinho, uma metamorfose extraordinária que, no entanto, parecia mais credível aos vitorianos do que a ideia destas aves migrarem milhares de quilómetros para se reproduzirem em distantes fiordes e escarpas na Escandinávia, Islândia e Gronelândia. Foram os naturalistas escandinavos que primeiro pensaram em marcar aves com anilhas. Foi nos finais do século XIX e os europeus, depois de explorado o mundo, começavam já a suspeitar que as aves migravam para outras paragens distantes quando não estavam na Europa. Começaram a colocar anilhas metálicas com códigos de letras ou números que permitiam identificar a ave caso esta voltasse a ser capturada mais tarde. Em poucas décadas esta ideia permitiu ficar a conhecer a fundo as migrações de centenas e centenas de espécies, não só na Europa, mas também no resto do mundo, para onde a ideia foi exportada. Mas hoje em dia temos técnicas ainda mais avançadas, a que voltarei mais adiante.

segunda-feira, agosto 27, 2012

RIP: Neil Armstrong


""Don't tell me the sky is the limit, when there are footprints on the Moon" (Paul Brandt)

Até pode ter sido o resultado de uma perversa batalha de egos entre duas super-potências à procura de preponderância num mundo sob a ameaça de um holocausto nuclear, mas a chegada à Lua, os primeiros passos na lua e as palavras imortais de Neil Armstrong "That's one small step for man, a giant leap for mankind" marcaram um dos pontos mais altos do século vinte e um marco que será certamente celebrado por gerações futuras, quem sabe, até um dia celebrado em colónias em outros planetas, na Lua, em Marte ou até noutros sistemas estrelares.
O feito da Apolo 11 mostrou ao mundo aquilo de que somos capazes se nos concentrarmos num grande objectivo e abriu caminhos para um mundo melhor, assim nós saibamos aprender com o seu exemplo. Neil Armstrong acabou por ser apenas o porta-estandarte de uma missão que envolveu centenas e centenas de pessoas entre astronautas, engenheiros e tantos outros profissionais, mas a sua atitude humilde perante o seu feito ajudou também a desenhar a letras ainda mais douradas o seu nome nos anais da história da humanidade. Adeus Neil, não serás esquecido.

domingo, agosto 26, 2012

Postais das Selvagens


5 - Primeiro dia na ilha

Planalto da Selvagem Grande com o Pico dos Tornozelos ao fundo

No dia seguinte, acordei pronto para o meu primeiro dia na ilha. Saí do quarto e logo na varanda abarquei a vista soberana sobre o Atlântico, que entre as rochas da enseada vinha beijar a terra a menos de vinte metros da minha pessoa. Cheirava a maresia, claro, e nos ares as cagarras continuavam já o seu habitual concerto zurrado e coaxado. Foi nesta varanda que foi tomado o pequeno almoço, igual a tantos que viria a tomar nas seis semanas seguintes, sempre a saberem mais à vista e ao aroma do oceano do que aos sabores exactos dos alimentos. Pouco depois, chegou a hora de subir pela primeira vez ao planalto da ilha e abarcar finalmente a ilha por inteiro. A subida não é fácil, não por haver falta de degraus ou de aderência, mas porque a inclinação é muita e altura também. Não devem ser muito menos que cem metros na vertical, e muitos mais na linha curva e tortuosa do caminho entre rochas e calhaus.
Antes de pensar em aves, ou nas vistas, a primeira coisa que notamos é a profusão de lagartixas que populam na ilha em números prodigiosos. Já as tinha visto pela casa e na varanda, às dezenas sempre a correr de pedra em pedra em busca de sol e alimento, mas agora enquanto caminhávamos em direcção ao planalto parecia razoável assumir que debaixo de casa pedra da ilha existirá pelo menos uma, se não muitas mais lagartixas de tom acinzentado e cauda serpenteante. Mas rapidamente esquecemos as lagartixas, que de tantas se tornam parte da paisagem e começamos a notar os outros prodígios das ilhas. A vegetação é parca e raquítica, mas saltam à vista uns pequenos tomateiros, ricos em pequenos tomates mais ou menos maduros que me dizem serem os mais gostosos que existem. Mas claro, numa ilha pequena com dezenas milhares de cagarras, estas acabam por dominar as atenções. Começamos por ver uma sentada no seu ninho num nicho rochoso, mais alguns passos e avistamos outra e mais outra. Qualquer pequena cavidade serve para fazerem ninho, sejam orifícios naturais nas rochas, fruto da erosão dos elementos, sejam montículos de pedras fruto do acaso ou de mão humana, sejam construções mais firmes, muros e muretes de pedra solta habilmente montados por antigos visitantes à ilha. Existem ninhos junto ao caminho, por cima do caminho e, até debaixo do caminho. Por vezes entre uma passada notamos que debaixo da pedra onde colocamos o pé lá se aninha uma cagarra, olhando para nós com olhar talvez reprovador, talvez meramente curioso. Pelo caminho, dobrado o primeiro obstáculo ao horizonte, avistamos a Enseada das Galinhas, uma baía um pouco maior que a primeira, onde fica a casa, mas com escarpas igualmente abruptas e agrestes. No seu limite oriental fica o Pico do Inferno, o terceiro ponto mais alto da ilha, que nas suas profundezas rochosas, junto ao mar, esconde uma gruta homónima que imediatamente junto à lista de locais a visitar nas próximas semanas.
É próximo do Pico do inferno que chegamos ao planalto, o topo da ilha. É relativamente plano, mas dominado por uma elevação alongada de um castanho violento, o Pico dos Tornozelos, do lado oriental, e por um monte agudo encimado pelo farol da ilha, o Pico da Atalaia, ponto mais alto da Selvagem Grande com 163 metros acima do nível do mar. O Pico dos Tornozelos esconde a parte norte da ilha, uma continuação deste planalto em que agora me encontro, que termina em escarpas íngremes que caiem sobre o mar na vertente norte da ilha. À direita desse pico fica a Enseada das Pedreiras, a maior da ilha, que esconde nas suas falésias a gruta auspiciosamente baptizada como Gruta do Capitão Kidd. Esta parte sul do planalto é pedregosa, como seria de esperar, e percorrida por alguns caminhos estreitos, delimitados por pedras escuras, e por quatro longos muros de pedras empilhadas, com algumas centenas de metros de extensão, onde as cagarras e as almas-negras nidificam em buracos mais ou menos profundos. Entre as pedras despontam diversas plantas, arbustos e ervas secos e nada verdes, do tipo de plantas que consegue arduamente sobreviver nestes locais secos e pouco férteis. Subindo ao Pico dos tornozelos, avista-se o Chão dos Caramujos, uma zona branca que ao longe parece ser um areal de areias do mais puro branco, mas que na verdade são as conchas de milhões de caracóis mortos que ali se acumulam desenhando no chão uma mancha com o branco cadavérico dos seus esqueletos de molusco gastrópode. Logo me avisam que nas zonas em redor do Pico dos Tornozelos não me é permitido caminhar, são zonas menos pedregosas onde os calcamares fazem os seus ninhos em buracos no parco solo da ilha, podendo as frágeis estruturas abater sob o nosso peso e soterrar os seus habitantes, sejam eles ovos, crias ou adultos a incubar a proxima geração.

sexta-feira, agosto 24, 2012

Postais das Selvagens


4 - Selvagem Grande com Donetsk no horizonte

Sala da casa da reserva na Selvagem Grande, invadida pelos marinheiros
 à hora do Portugal-Espanha.

Depois deste desvio, retomamos então a rota em direcção à Selvagem Grande, onde chegaríamos por voltas das 14:30. A primeira impressão foi de uma pequena montanha que se ergue do mar, de rocha escura e rude descendo até ao mar em vertentes íngremes. Rapidamente vislumbramos a casa da reserva, junto ao mar, numa enseada certeiramente denominada de Enseadas das Cagarras. O nosso patrulha fundeou a talvez uns quinhentos metros da costa e demos início ao desembarque de pessoas e mantimentos através de botes, tendo eu chegado à ilha na terceira viagem. Não houve muito tempo para tomar primeiras impressões, entre a labuta da descarga do material e dos mantimentos e as saudações e cumprimentos aos colegas que nós vínhamos render. Talvez possa dizer que a primeira impressão foram as águas límpidas e convidativas da enseada, que se rasga em várias pequenas baías divididas pela bruta rocha vulcânica da ilha. Ou talvez fosse o canto das cagarras que nos dão as boas-vindas no seu tom que a mim sempre pareceu uma mistura entre o zurrar do burro e o coaxar das rãs. Eram às dezenas, voando sobre as nossas cabeças, mas rapidamente me disseram que cheguei num dia fraco, que no próximo pico dos estranhos ciclos em que estas aves vêm a terra visitar os ninhos elas seriam muitas, muitíssimas mais nos céus. Não demorei muito a verificar que era verdade.
Esta rendição foi algo sui generis, pois havíamos chegado num dia muito particular. Quis o destino que neste dia tivesse lugar o desafio de futebol entre Portugal e Espanha, para as meias finais do campeonato europeu de futebol. O jogo ia ser disputado em Donetsk, na Ucrânia, a muitos milhares de quilómetros de distância, mas a tecnologia e os satélites permitem que até aqui, no limite sul de Portugal, algumas dezenas de concidadãos pudessem sofrer ao vivo pelo sua selecção. Ainda durante a viagem de barco o imediato e o comandante do Cuanza haviam indagado se seria possível vir a terra para ver o jogo, e, sendo a nossa resposta afirmativa, lá escolheram entre os marujos a quem seria dada a benesse de ir a terra e fomos quase trinta ao todo, apinhados na sala de estar, a ver o jogo que infelizmente acabou mal para as cores nacionais. Incapazes de resolver o jogo em 120 minutos de futebol, Portugal e Espanha foram obrigados a tirar as teimas num desempate por grandes penalidades, em que a sorte, ou a habilidade, sorriram a nuestros hermanos.
Acabado o desafio, cuja derrota na excitação da chegada a um sitio novo e extraordinário pouco desalento me trouxe, marinheiros e civis trataram de embarcar no barco e deixaram apenas três na ilha. Três seres humanos mais de cem quilómetros de qualquer outro representante da sua espécie, com a eventual excepção de algum barco que passasse ao largo. Além de mim e do vigilante Jaques, ficou na ilha a minha colega Maria, veterana acabada de passar três semanas na ilha e pronta para mais três.

terça-feira, agosto 21, 2012

Postais das Selvagens


3 - Selvagens à vista

Vislumbra-se o leve vulto da Selvagem Pequena no horizonte, sob o olhar
 atento de um dos marinheiros do N.R.P. Cuanza

Por volta das dez horas avistamos a Selvagem Pequena, nosso primeiro destino do dia. Por entre a neblina que demorava a levantar, avistamos um triângulo de lados desiguais, o pequeno pico que domina a ilha, que mais tarde me disseram chamar-se Pico do Veado. A silhueta da ilha foi crescendo no horizonte, como se se erguesse lentamente das águas, e eventualmente começamos também a ver o resto da ilha, composta por praias arenosas e muitas rochas, assim como os muitos ilhéus que circundam a ilha. Notava também na vertente da ilha um tom esverdeado da pouca vegetação que por lá cresce.
Assim que nos aproximámos, surgiram em redor do barco andorinhas-do-mar a dar-nos as boas vindas com os seus chilreios, assim como algumas gaivotas que nos sobrevoaram com o ar enfadado de quem se apercebe que este barco não era um pesqueiro e não oferecia nem peixe nem outra fonte de alimento. Surgiu também o bote dos vigilantes que depois de três semanas sozinhos, quais Robinson Cruzués voluntários, deviam estar ansiosos por voltar a ver outros entes da sua espécie. Com uma eficácia extraordinária, trouxeram para bordo o seu equipamento e uma quantidade tristemente impressionate de sacos cheios de lixo que tinham recolhido durante a estadia na ilha. O lixo, claro, não era dali, era oriundo de terras civilizadas distantes, na sua maioria plásticos numa profusão de garrafas, embalagens e caricas que nos lembram o impacto que a humanidade tem sobre este planeta, que se faz sentir até mesmo nestes lugares remotos e aparentemente selvagens e pristinos.
Acabado o embarque de pessoas e material na Selvagem Pequena, e avistado ali tão perto o tal Ilhéu de Fora que marca o limite sul de Portugal, o barco zarpou com destino à Selvagem Grande, o meu destino. A viagem que normalmente demoraria pouca mais de uma trintena de minutos, acabou por durar bem mais, fruto das obrigações de patrulhamento que naturalmente se exigem de um patrulha. Em vez de virar logo para nordeste, o barco teve de seguir para sul para controlar um barco que se aproximava indevidamente de águas portuguesas. Felizmente não houve necessidade de batalha naval. Ou por nos ter avistado, ou porque realmente não pretendia invadir as nossas águas, o barco virou para outras águas e libertou a marinha das suas funções mais bélicas.

terça-feira, agosto 14, 2012

Postais das Selvagens


2 - Partida do Funchal

A bordo do patrulha N.R.P. Cuanza, com o Funchal ao fundo

Para chegar às selvagens tive de recorrer à ajuda da marinha, que tem a responsabilidade de patrulhar aquelas águas contra a ocasional introsão de algum barco de pesca estrangeiro, geralmente espanhol, e que trata também de realizar as rendições dos vigilantes do Parque Natural da Madeira que ficam nas ilhas para vigiar o seu património natural. Depois de um dia e meio no Funchal, e de comprados todos os mantimentos necessários, embarquei no barco patrulha N.R.P. Cuanza às 23 horas do dia 26 de Junho de 2012, tendo o navio zarpado uma hora de depois, sob uma meia lua em quarto crescente e alguma neblina.
Um mar estava calmo, quase não se sentia a ondulação a bordo, e verifiquei que os tripulantes viam os passeiros, eu e o vigilante Jaques, como mais uma peça de equipamento que tinham de transportar. Da fama de oficiais e cavalheiros, estes marinheiros pouco proveito tiravam, no dia seguinte nem comida nos ofereceram enquanto almoçavam o seu arroz de polvo. Achei melhor esforçar-me por não os incomodar e sair do caminho porque naturalmente tinham o seu oficio a desenpenhar. Fiquei a ver as luzes do Funchal desaparecer durante talvez uma hora e depois procurei um pouso onde dormir um pouco, no porão do navio. O chão podia ser de ferro e o ruído dos motores algo insurdecedor, mas nada disso me impediu de dormir um belo sono.
Acordei por volta das oito da manhã, um pouco dorido da cama de ferro, mas restabelecido e pronto para o dia que começava. Quando subi ao convés vi o mar alto a toda a volta, no horizonte nem terra nem navio, só o eterno buliço do oceano. Pensei para com os meu botões que nunca tinha estado no mar tão longe de terra, e deixei-me ficar a apreciar o espetáculo das ondas em infinitos tons de cinzento, sob o céu baixo e plumbeo. Indiferentes à nossa presença, e ao ruído dos motores, iam passando por nós aves marinhas, que no seu domínio total dos ventos conseguiam facilmente ultrapassar o navio e dar voltas em nosso redor. A maioria eram cagarras e almas-negras, mas também os calcamares, no seu jeito brincalhão de cangurus dos mares, iam saltitando sobre as águas, de onda em onda.

sábado, agosto 11, 2012

Postais das Selvagens


1 - Das Selvagens...


Das selvagens ouvira eu falar muito pouco. Fronteira sul da nação, chamam-lhe os garbosos militares da aviação, que por lá eregeram uma placa comemorativa num tom que soará talvez a melancolia pelos tempos do império ultramarino.
Sabia delas a posição, desenhada nos mapas entre a Madeira e as Canárias, mais perto de Tenerife que de terras lusas, confirmando a sua função de posto avançado da pátria de Camões contra a coroa espanhola. Sentia-lhes também o sabor do nome, selvagens como os nativos de selvas distantes. Soa a nome de terra agreste e inóspita onde o planeta recebe com maus olhos a visita do homem. Lembra também outras tantas palavras rudes, essoutras que o dicionário associa a selvagem, coisas como silvestre, bravio, inabitado, inculto, não civilizado, ermo, maninho, até mesmo malvado. Não me lembram porém a selvajaria, essa que é bem mais comum nos domínios do homem civilizado do que nas terras dos selvagens.
Sabia serem pequenas ilhas, que talvez corações menos orgulhosos de outras pátrias tivessem chamado ilhéus. A maior, tão doutamente nomeada Selvagem Grande, é como que um pentágono de arestas mais ou menos erodidas que mal chegam aos dois quilómetros de extensão. A menor, sem grandes surpresas chamada Selvagem Pequena, é mais alongada e as suas poucas centenas de metros mal se erguem sobre as águas do oceano, de tal formas que se diz duplicar de tamanho durante a baixa-mar. Existem ainda vários ilhéus menores, atrevo-me a dizer ainda menores, com nomes como o Palheiro de Mar e o Palheiro de Terra, junto à Selvagem Grande, e o Ilhéu Grande, o Ilhéu Pequeno, o Ilhéu Redondo, o Ilhéu Comprido, os Ilhéus do Norte, o Ilhéu Alto, o Ilhéu do Sul e o Ilhéu de Fora, todos junto à Selvagem Pequena, sendo que a ponta sul do Ilhéu de Fora é oficialmente o ponto mais a sul de Portugal, cruzando por poucos metros o paralelo dos 30º Norte. Para além destes, existem ainda vários pequenos baixios e escolhos pouco convidativos para marinheiros distraídos.
Conhecia sobretudo o valor destas ilhas enquanto colónias de aves marinhas, como a cagarra que aqui tem a maior colónia do mundo com mais de 30.000 casais, a alma-negra, o calcamar, o roquinho e o pintaínho, tendo sido este o motivo que me levou, ou antes me permitiu, visitar estes pedaços remotos de Portugal.

segunda-feira, junho 18, 2012

A Grécia como vítima, por Paul Krugman

De vez em quando, leio um artigo internacional que me parece de tal forma crítico para a nossa compreensão da realidade em que vivemos, que me dedico a traduzi-lo para português, para o tornar mais acessível a todos nós portugueses (e porque não os outros falantes de português por esse mundo fora). É o caso deste artigo sobre a crise grega - e europeia - publicado ontem, 17 de Junho de 2012, no The New York Times.
Deixo-vos a minha tradução, que tentei manter tão fiel ao original quanto possível. O original em inglês pode ser lido aqui.

 
"Desde que a Grécia entrou em crise temos ouvido muitas afirmações sobre tudo o que está errado com a Grécia. Algumas destas acusações são verdadeiras, algumas são falsas – mas todas elas passam ao lado da verdadeira questão. Sim, existem graves falhas na economia grega, nas suas políticas e certamente na sua sociedade. Mas essas falhas não são a causa da crise que está a destruir a Grécia, e que ameaça espalhar-se por toda a Europa. Não, as origens deste desastre localizam-se mais a norte, em Bruxelas, Frankfurt e Berlim, onde os governantes criaram um sistema monetário profundamente – talvez fatalmente – defeituoso, e depois agravaram os problemas do sistema ao substituírem a analise técnica por uma moral duvidosa. E a solução para a crise, se existir uma, terá de vir desses mesmo locais. 

Mas, voltando a essas falhas gregas: a Grécia tem de facto muita corrupção e muita evasão fiscal, e o governo grego tem tido o hábito de viver acima das suas posses. Para além disso, a produtividade do trabalho grego é baixa tendo em conta os padrões europeus – cerca de 25% abaixo da média da União Europeia. No entanto, vale a pena notar que, por exemplo, a produtividade no estado do Mississipi é igualmente baixa em relação ao padrão americano – e aproximadamente pela mesma margem. 

Por outro lado, muitas coisas que se ouvem à cerca da Grécia são simplesmente falsas. Os gregos não são preguiçosos – pelo contrário, trabalham mais horas que quase todos os outros povos europeus, e certamente muito mais horas que os alemães em particular. Nem tem a Grécia um estado social despesista, como os conservadores tanto gostam de alegar; os gastos sociais em percentagem do PIB, a medida padrão para a dimensão do estado social, é substancialmente mais baixa na Grécia do que, por exemplo, na Suécia ou na Alemanha, países que até ao momento sobreviveram bastante bem à crise europeia. 

Então como se explicam os graves problemas da Grécia? Culpem o euro. 
Há quinze anos atrás a Grécia não era nenhum paraíso, mas também não estava em crise. O desemprego era elevado, mas não era catastrófico, e o país conseguia de forma geral sobreviver nos mercados mundiais, ganhando com as exportações, o turismo, a marinha mercante e outros recursos o suficiente para pagar as suas importações. 

Então, a Grécia entrou no euro, e algo de terrível aconteceu: as pessoas passaram a acreditar que a Grécia era um local seguro para investir. O investimento estrangeiro inundou a Grécia, parte dele mas não todo financiando o défice estatal; a economia explodiu; a inflação cresceu; e a Grécia tornou-se cada vez menos competitiva. Claro que os gregos desperdiçaram muito, se não a maior parte, deste dinheiro, mas o mesmo fizeram todos os que foram apanhados na bolha do euro. 

E então, a bolha rebentou, momento em que os erros fundamentais de todo o sistema do euro se tornaram demasiado óbvios. 
Perguntem-se porque razão a zona do dólar – também conhecida como Estado Unidos da América – de forma geral funciona, sem as graves crises regionais que afligem a Europa? A resposta está no governo central forte, e nas actividades deste governo que garantem “resgates” automáticos para os estados que se encontram com problemas. 

Considerem, por exemplo, o que estaria a acontecer à Florida no presente, depois da sua tremenda bolha imobiliária, se o governo central não garantisse o dinheiro para pagar a segurança social e o serviço de saúde, poupando assim os cofres subitamente desguarnecidos da Florida desses gastos. Felizmente para a Florida, é Washington e não a sua capital estatal Tallahassee que paga a conta, o que significa que a Florida está na verdade a receber um “resgate” a uma escala que nenhuma nação europeia poderia sequer imaginar. 

Ou considerem um exemplo mais antigo, a crise das poupanças e empréstimos dos anos 80, que foi essencialmente um problema do Texas. Os contribuintes acabaram por pagar um custo tremendo para limpar essa confusão – mas a grande maioria desses contribuintes viviam em estados que não o Texas. Novamente, o estado recebeu um “resgate” automático a uma escala inconcebível na Europa moderna. 

Portanto a Grécia, embora não esteja isenta de culpas, está a atravessar graves problemas essencialmente devido à arrogância dos governantes europeus, a maioria de países ricos, que se convenceram que era possível fazer funcionar uma moeda única sem um governo central. E estes mesmo governantes tornaram a situação ainda pior ao insistirem, apesar de todas as evidências, que os problemas da moeda única eram causados por comportamentos irresponsáveis por parte dos europeus do sul, e que tudo se resolveria se as pessoas estivessem dispostas a sofrer mais um pouco. 

O que nos traz às eleições gregas de domingo, que acabaram por não resolver nada. A coligação governamental pode ter conseguido manter-se no poder, embora nem isso seja ainda claro (o parceiro menor da coligação está a ameaçar desertar). Mas de qualquer forma os gregos não podem resolver esta crise. A única forma de o euro talvez – talvez – se salvar será se os alemães e o Banco Central Europeu perceberem que são eles que têm de mudar o seu comportamento, gastando mais e, sim, aceitando uma inflação mais elevada. Se não – bem, a Grécia ficará basicamente na história como a vitima da arrogância alheia."

Paul Krugman, in The New York Times 17-06-2012

domingo, junho 17, 2012

Sumo de laranja


Portugal 2 - Holanda 1


Se, nas palavras famosas de Gary Lineker, para os ingleses o futebol "são 11 contra 11 e no final ganha a Alemanha"*, parece cada vez mais evidente que para os holandeses o futebol são 11 contra 11 e no fim ganha Portugal. A nossa selecção tem vindo a ganhar o bom hábito de eliminar a Holanda sempre que as duas nações se encontram em competições futebolísticas. Na verdade, já lá vão 21 anos desde a última vez que Portugal perdeu com a Holanda, num já longínquo jogo a 16 de Novembro de 1991, em Roterdão, em que a Holanda ganhou 1-0.
Na verdade, essa foi a única vez em que selecção nacional perdeu um jogo contra a sua congénere holandesa. Portugal e Holanda defrontaram-se 11 vezes, incluindo já o jogo de hoje, tendo esses confrontos resultado em 7 vitórias lusas, 3 empates e a tal única vitória holandesa. No conjunto dos 11 jogos, Portugal leva um confortável vantagem de 14-6 em termos de golos.
As razões para esta brutal superioridade da nossa selecção contra uma das equipas com mais palmarés mundial é talvez explicada pelo facto de a Holanda ser talvez a única equipa que joga sempre abertamente ao ataque contra Portugal, sendo a sua defesa uma espécie de cocktail de mel com laranjas doces para os nossos avançados. Mais estranha ainda é a inépcia ofensiva da Holanda contra Portugal, tendo em conta o seu estilo ofensivo e a excelência dos seus avançados, mas a verdade é que contra Portugal o super ataque da Holanda é mais ou menos tão assustador e prolífico como o Hélder Postiga...
Só mais um dado interessante. Até hoje, existiam duas equipas que nunca tinham sido eliminadas na fase de grupos de um Europeu de futebol, Portugal e Holanda. Portanto, a partir de hoje, Portugal passa a ser a única equipa europeia com esse recorde no seu curriculum. Agora venham os checos!


*na verdade esta é mais uma de tantas citações incorrectas que correm mundo, as palavras exactas de Lineker foram "Soccer is a game for 22 people that run around, play the ball, and one referee who makes a slew of mistakes, and in the end Germany always wins", pelo que a frase era mais dirigida aos erros dos árbitros a favor da Alemanha do que a uma eventual superioridade futebolística germânica, como pareceria indicar a citação corrente.

quinta-feira, junho 07, 2012

Torres Gémeas





As torres gémeas de Nova Iorque caíram em poucas horas depois de atacadas em 2001 (se foi um ataque de terroristas islâmicos ou um inside job não me cabe agora a mim discutir). Quanto tempo demorarão a caír as torres gémeas de Madrid depois de começar o ataque desenfreado dos mercados (estes sim são terroristas com 100% de certeza)?


O Bankia já foi à vida... no caso de Nova Iorque a outra torre não durou muito mais. Isto não me interessaria assim muito, se não se desse o caso de os imbecis que (des)governam Portugal acreditarem cegamente que só as exportações nos podem salvar, não vendo que em todos os países desenvolvidos é o consumo interno o motor da economia. Já era mau ver um governo ter como objectivo tornar Portugal um país do terceiro mundo, mas quando estas torres gémeas nuestras hermanas caírem, cai também com elas o principal mercado das nossas exportações e com ele a já fraca retórica do coelhinho...


P.S.: Por falar em coehinhos, diz-se que o animal em si não dá sorte, mas que depois de morto as suas patitas secas dão... fica a sugestão!!