domingo, julho 31, 2011

Piscares de Olho - XLVIII

Os gatos são criaturas estranhas. São predadores ferozes, impiedosos, mas são ao mesmo tempo bolas de pelo fofas e ternurentas. É talvez essa ambiguidade que os torna tão atractivos para a psique humana. Esta gata, que aqui fotografei, chama-se Nicky e o seu olhar parece desenhar toda essa ambiguidade felina. Dos bigodes à ponta das orelhas esta gata preta foi um modelo perfeito para experimentar o preto e branco.

sábado, julho 30, 2011

Pure evil?

Most religions tend to impersonate evil into some notorious character. You might have eared about the devil, Satan, Lucifer, Iblis, Rahu, Mara, Set, etc. These characters impersonate evil as means to provide a target for the eternal struggle between good and evil.
In the real world, evil is much more real and it is mostly impersonated by a large set of demons often called multi-national corporations. Above all of these, there is one that certainly rules as the pure essence of evil: Monsanto. Funded in 1901, this corporation describes itself as an agriculture company, but has been associated to most chemical and bio-technological blunders affecting human kind, from the agent orange to genetically modified plants. Their aim is simply, to control de world's food production. Their purpose is also simple, to make as much profit as possible, even if that means killing, spreading disease and misery, and destroying the livelihood of millions across the globe. If you don't believe me, look it up. That's what the internet is for!

quarta-feira, julho 27, 2011

Natureza fantástica

Estudo dá a conhecer os agricultores mais pequenos do mundo





Cientistas norte-americanos descobriram que alguns indivíduos de uma espécie de ameba, ser unicelular, recolhem bactérias que transportam e “semeiam” para que, depois de se multiplicarem, lhes sirvam de alimento.

O comportamento do agricultor, que semeia para depois colher os frutos do seu trabalho, já foi observado em peixes, formigas e térmitas e até moluscos, mas nada fazia prever que se viesse a descobrir que seres do reino Protista, formas unicelulares, também o podem exibir.

Cientistas norte-americanos da Universidade de Rice (Texas) revelaram que uma determinada espécie de amiba, Dictyostelium discoideum, que se alimenta de bactérias, é o agricultor mais pequeno que se conhece.

Segundo os biólogos este seres microscópicos, conhecidos como “slime mold” em inglês, vivem de forma independente alimentando-se de bactérias que obtêm do solo mas, quando o alimento se esgota, associam-se para, através de movimentos sinuosos, se deslocarem até novo local.

Aí, estabelecem-se formando um pedúnculo coroado por uma estrutura que produz esporos que dão origem a novas amibas, o que permite o recomeçar do ciclo. Os cientistas descobriram que algumas destas estruturas possuem também bactérias.

Segundo explica Debra Brock “Elas podem transportar [as bactérias], dispersam-nas, e semeiam-nas em novos locais e depois colhem-nas” .

No entanto, os investigadores não observaram este comportamento em todos os clones desta espécie que testaram, mas apenas em 2/3, o que sugere que os dotes de agricultor não devem ser vantajosos em todas as situações. De outro modo, o comportamento já se teria generalizado.

terça-feira, julho 26, 2011

Blue

Blue, here is a shell for you
Inside you’ll hear a sigh
A foggy lullaby
There is your song from me

Joni Mitchell, "Blue" (1971)

segunda-feira, julho 25, 2011

Fanatismo

As religiões estão certamente lá em cima no top das piores criações da humanidade, logo acima da gasolina com chumbo e da desflorestação dos trópicos, e só ligeiramente abaixo do aquecimento global. Pensando bem, este último não é bem uma criação da humanidade, antes uma consequência de outras criações, pelo que as religões podem muito bem estar mesmo no topo da lista.
As religiões limitam o pensamento humano através de dogmas e terrores, repudiam a liberdade de expressão e são, acima de tudo, fogueiras de fanatismos que acabam inevitavelmente em tragédia.
Foi isso que aconteceu recentemente na Noruega, como tinha acontecido antes em tantos países da Asia, em Madrid, em Londres e em Nova Iorque, em Israel e na Palestina a um ritmo quase diário, no norte de África, etc. etc. etc. Não esquecendo o passado muito triste da Europa neste campo! Toda a lógica das religiões é perversa, é baseada no ódio, mesmo quando pretendem professar o amor. Em última análise, esperemos que as religiões não sobrevivam à humanidade, porque de outra forma a humanidade não irá certamente sobreviver às religiões... quanto tempo até um tarado de uma qualquer religião usar a carta nuclear e dar início ao verdadeiro fim do mundo como o conhecemos?

domingo, julho 24, 2011

Piscares de Olho - XLVII

Os faróis sempre fizeram parte do imaginários dos povos que vivem à beira mar. Inicialmente eram meras fogueiras, mais tarde lâmpadas de azeite, eventualmente passaram a ser as poderosas lâmpadas eléctricas que hoje iluminam a noite nos cabos e outros pontos perigosos da costa. Os faróis terão evitado, ao longo dos séculos, a morte de milhares e milhares de homens do mar, que de outra forma teriam acabado por naufragar, incapazes de evitar rochedos traiçoeiros e outras ameaças dos mares costeiros. Os faróis são também uma fonte habitual de inspiração para a fotografia, dominando sozinhos imensas falésias, lutando contra a violência dos mares de inverno, ou simplesmente pontuando o horizonte com a sua presença pétrea. Este farol fica em S. Pedro de Moel, perto de Leiria.

quarta-feira, julho 20, 2011

Crop circles

Os chamados "crop circles" são desenhos realizados em campos de cereal que só podem ser vistos do ar e fazem geralmente um belo efeito visual. Existem todo o tipo de teorias sobre a sua origem, desde fenómenos energéticos estranhos a mensagens escritas por naves extra-terrestres para comunicar com a raça humana. É curiosos alguém achar que uma civilização tão avançada que seria capaz de viajar até ou planeta ou outro sistema solar desconheça o uso do rádio ou da televisão, preferindo fazer desenhos gigantescos nos cereais, mas enfim...
De qualquer forma, diversas pessoas admitiram já terem sido eles a fazer muitos destes desenhos, e ao que parece é relativamente facil de fazer uma coisa destas, usando tábuas rasas e cordas para alisar as plantas. Hoje em dia estes desenhos são até usados para efeitos publicitários, nomeadamente pela Greenpeace em campanhas contra o uso de vegetais geneticamente modificados.
Apesar de o mistério parecer desmistificado, não deixa de surpreender a persistência das pessoas que fazem estas coisas e a sua crescente sofisticação. O desenho que aqui apresento apareceu perto de Winchester, no Reino Unido. A representação do típico extra-terrestre geralmente usado na ficção científica e nas histórias sobre pessoas que teriam tido contacto com extra-terrestres, deita logo por terra o mistério... é escandalosamente óbvio que se trata de uma fraude. Mas o mais interessante não é a face alienígena, mas antes o círculo que o ser parece segurar. A sequência de pontos e espaços é na verdade uma mensagem encriptada em código binário, que diz, em inglês:

Beware the bearers of false gifts and their broken promises
Much pain but still time
There is good out there
We oppose deception
Conduit closing

O nível de elaboração a que os criadores deste desenho chegaram é impressionante, gerando em mim uma pergunta: porque tem esta gente tanto tempo livre nas suas mãos?
Não acredito nem por um segundo que algum destes desenhos tenha uma origem não humana, não por achar impossível que civilizações extra-terrestres nos tentassem contactar, mas porque este seria, de todos, possivelmente o método mais absurdo para o fazer... Mas deixo os meus parabéns aos gajos que fazem estas coisas. Fazem um trabalho bem feito, muitas vezes bonito e claramente pensam profundamente nas suas ideias antes de as por no "papel", ou neste caso no cereal!

terça-feira, julho 19, 2011

Mandela Day

Ontem assinalou-se o Mandela Day, o aniversário de Nelson Mandela. A sua Fundação propos uma série de 67 acções que cada um de nós poderá praticar para tornar o Mundo um melhor lugar. Eis alguns exemplos:

- Faça um novo amigo. Conheça alguém de um contexto cultural diferente do seu. Só através do entendimento mútuo é que as nossas comunidades se livrarão da intolerância e da xenofobia;

- Leia para alguém que o não pode fazer. Visite uma instituição para cegos e abra um novo mundo para outra pessoa;

- Dê uma ajuda no seu canil local. Cães sem dono também precisam de passear e de um pouco de atenção;

- Ajude alguém a arranjar um emprego. Crie-lhe um currículo ou ajude-o na preparação da entrevista;

- Muitas pessoas com doenças terminais não têm ninguém com quem falar. Reserve algum do seu tempo a falar com elas;

- Leve alguém que conhece - e que não tem recursos para o fazer - a uma consulta de oftalmologia ou de medicina dentária;

- Doe uma cadeira de rodas ou um cão-guia a quem precise;

- Compre alguns cobertores, ou dê os que já não precisa a alguém em dificuldades.

Estas são apenas algumas das 67 sugestões propostas pela Fundação Nelson Mandela no seu site. Poderá encontrar mais sugestões aqui.

segunda-feira, julho 18, 2011

Marés...

You can't change the system from the outside, but neither can you change it from the inside. You have to patiently wait for the tide to change and take the system with it.
The only problem is that while you are waiting for the tide to change you may very well drown...

domingo, julho 17, 2011

Piscares de Olho - XLVI

O pato-branco Tadorna tadorna é uma espécie relativamente rara em Portugal. É possivel avistar este pato no Estuário do Tejo, sobretudo no Inverno, mas ve-lo é uma sorte. No norte da Europa, nomeadamente nas Ilhas Britânicas e na Holanda a situação é bem diferente, esta é uma espécie comum, facilmente observada em zonas estuarinas, lagos, e até nos canais holandeses. Tirei esta fotografia num canal à beira de uma estrada, na provincia holandesa da Frísia (ou Fryslân). Este casal, acompanhado de 11 patinhos fofinhos era uma visão comum na região, mas não deixa por isso de ser uma imagem bonita e ternurenta da vida selvagem desse país a que o Padre António Vieira um dia chamou (tão apropriadamente) "aquele frio e alagado Inferno".

terça-feira, julho 12, 2011

domingo, julho 10, 2011

Piscares de Olho - XLV

O piscar de olho de hoje volta a ser sobre estátuas. Não se tratam de obras primas como a estátua de Florença da semana passada, mas estas estátuas, que decoram um edifício no centro de Gdansk, na Polónia, recortadas contra o azul forte do céu de Outono, fazem uma bela fotografia. Fundada no século X, esta cidade costeira localizada no norte da Polónia era uma importante fortificação, porto de pesca e centro do comércio do âmbar e de ofícios. Desde então, em épocas diferentes, foi controlada pelos polacos, pelos cavaleiros teutónicos e pelos alemães. O comercio do âmbar, material raro, mas abundante no Báltico, enrriqueceu alguns dos mercadores de Gdansk que construíram para si pequenos palácios como o da fotografia, ricamente decorados com estátuas e outras obras de arte.

sábado, julho 09, 2011

Hino ao Biólogo

O filme "The Life Aquatic with Steve Zissou", filmado em 2004 por Wes Anderson, tinha na sua banda sonora o então ilustre desconhecido Seu Jorge. Este cantor brasileiro, que entretanto adquiriu reconhecimento quase global e já faz primeiras partes de concertos das maiores vedetas da música internacional, tinha um papel secundário no filme, fazendo o papel de um marinheiro do barco de Steve Zissou, uma paródia ao Calypso do Cap. Jaques Costeau. Essa personagem tinha como única função aparecer em algumas cenas a tocar versões brasileiras de alguns dos maiores êxitos do mítico David Bowie.
Entre as músicas que ele tocava, existia uma que tocava fundo no coração de qualquer biólogo. A versão do Seu Jorge de Five Years (cujo original fora a música de abertura do álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, editado por David Bowie em 1972) parece, mesmo que talvez sem querer, um hino ao triste fado do biólogo. Se não, vejam alguns detalhes da letra:

Minha missão nesse mundo
É Pesquisar animais
Mergulhando no escuro
Com perigos reais
(não precisa de comentários)

E é sem ar que eu fico
Há Muito tempo eu fico
E Nunca fico rico
Aí por isso eu grito
(Se há coisa que os biólogos não ficam é ricos, e andam boa parte do tempo sem ar e à beira de gritar)

Porque eu não vivo há
Five years
Quase não vi nada nesses
Five years
(Cinco anos é um horizonte optimista para o tempo que um biólogo demora a fazer o seu doutoramento. Passados esses anos, ele olha para trás e verifica que esses anos são um imenso buraco na sua vida)

Fica aqui agora a música:

sexta-feira, julho 08, 2011

This means war

Parece que foi preciso a Moody's levar a sua guerrinha contra Portugal, e acima de tudo contra o Euro, ao extremo do absurdo para a parafernália de abéculas, disfarçadas de economistas, que comentam para as nossas televisões terem finalmente percebido...
Enquanto jogarmos este jogo, em que as agências de rating são jogadoras e árbitros, vamos sempre perder!

quinta-feira, julho 07, 2011

Tropa de Elite

Para quem não conhece, os filmes Tropa de Elite (1 e 2), realizados por José Padilha, são filmes brasileiros que focam a questão da criminalidade violenta no Rio de Janeiro e o BOPE, a polícia militar que combate ferozmente os traficantes de droga das favelas, assim como a polícia corrupta da cidade. No primeiro filme a personagem principal, o Capitão Nascimento, combate os traficantes enquanto tenta treinar um novo agente capaz de o substituir na sua missão de libertar as favelas do jugo dos traficantes. Resumidamente, é um filme de polícia e ladrões.
O segundo filme leva o conceito mais longe. O Capitão Nascimento, agora a trabalhar no departamento de segurança do estado brasileiro, continua a combater o crime, mas começando agora a ver as ligações suspeitas entre traficantes de droga, polícias corruptos, milícias e políticos. É neste filme que realmente chamam os bois pelos nomes, ficando patente onde está a verdadeira origem do crime no Rio de Janeiro, na corrupção que graça a política. O filme acaba com uma imagem aérea do congresso brasileiro, em Brasília, com a sugestão implícita que é essa a origem de toda a corrupção que trava o desenvolvimento da nação brasileira.
Se o primeiro filme vale mais pela acção constante, o segundo filme vale pela história, pela maior profundidade da personagem do capitão Nascimento, e pelo aberto denunciar da corrupção que grassa o Brasil. São filmes a não perder!

domingo, julho 03, 2011

Piscares de Olho - XLIV

A escutura é uma das 7 artes, uma das formas mais belas de expressão encontradas pelo Homem para representar o belo e conceptualizar a realidade. Não pretendendo perceber minimamente do assunto, sempre tive uma particular preferência pelas estátuas dos artistas do renascimento, aqueles que representavam o corpo humano com um detalhe e perfeição capazes de fazer a pedra fria ganhar o calor da vida e expressar sentimento como se de um ser consciente se tratasse. O piscar de olho de hoje levanos até Florença, capital da arte renascentista, onde fotografei este pormenor do "Rapto das Sabinas", obra do escultor flamengo Giambologna que representa o episódio lendário da história de Roma em que a primeira geração de homens romanos teria obtido esposas para si através do rapto das filhas das famílias sabinas vizinhas.

sexta-feira, julho 01, 2011

Artigo de um grego sobre a Grécia

Gostei tanto deste artigo sobre a situação grega que decidi traduzi-lo aqui para permitir chegar mais facilmente ao público português:


"Nunca estive tão desesperado por explicar, nem tão desejoso da vossa compreensão, sobre qualquer outro facto para além deste: Os protestos na Grécia dizem-vos respeito a todos directamente.

O que se está a passar em Atenas de momento é a resistência contra uma invasão; uma invasão tão brutal como a invasão da Polónia em 1939. O exército invasor veste de fato italiano em vez de uniforme, e segura nas mãos portáteis e telemóveis em vez de armas, mas não tenham dúvidas - este ataque à nossa soberania é igualmente violento e meticuloso. Interesses económicos privados estão a ditar a governação de uma nação soberana, governação essa que vai claramente contra o interesse nacional. Ignorem este facto por vossa conta e risco. Tentem convencer-se, se quiserem, que isto talvez acabe aqui. Que talvez os agiotas não vão de seguida atrás de Portugal e da Irlanda... e da Espanha e do Reino Unido. Mas já começou a acontecer. Esta é a razão porque não podemos dar-nos ao luxo de ignorar estes acontecimentos.

Os poderes instituídos sugeriram que existem muitas coisas que podem ser vendidas. Josef Schlarmann, um importante membro do Partido de Angela Merkel, fez recentemente a útil sugestão de que a Grécia deveria vender algumas das suas ilhas a compradores privados como forma de pagar os juros dos empréstimos, empréstimos esses que lhe foram forçados para estabilizar instituições financeiras internacionais e uma experiência monetária falhada, o Euro. Claro que não será pura coincidência o facto de vários estudos recentes terem indicado a existência de vastas reservas de gás natural sob o mar Egeu.

A China também entrou já na discussão, pois tem enormes reservas monetárias, mais de um terço das quais em Euros. Locais de interesse histórico como a Acrópole podem vir a pertencer a privados. Se a Grécia não fizer aquilo que lhe dizem de livre vontade, a ameaça explicita é a de que políticos estrangeiros mais responsáveis o farão pela força. Porque não transformar-mos o Pártenon e a antiga Agora num parque da Disney, onde gregos mal pagos se irão vestir de Platão e de Sócrates para divertir os ricos.


Claro que não quero excluir os meus compatriotas de toda a culpa. Fizemos muita coisa errada. Eu deixei a Grécia em 1991 e só voltei no final de 2006. Nos primeiros meses após regressar, olhava à minha volta e via um país completamente diferente daquele que eu deixara 15 anos antes. Em cada placard, em cada paragem de autocarro, em cada página de revista eram publicitados empréstimos com baixas taxas de juro. Era dinheiro gratuito a ser oferecido. Tem um empréstimo que não consegue pagar? Então venha cá que nós oferecemos-lhe um empréstimo ainda maior e ainda lhe oferecemos uma lap-dance como bónus. E os nomes por baixo de toda esta publicidade eram bastante familiares: HSBC, Citibank, Credit Agricole, Eurobank, etc.

Infelizmente, tenho de admitir que nós engolimos o isco, o anzol, a linha e a chumbada. A psique grega teve sempre um tendão de Aquiles, uma inerente crise de identidade. Nós estamos na encruzilhada entre três continentes e a nossa cultura foi sempre uma mistura que reflectia esse facto. Em vez de abraçarmos essa riqueza cultural, decidimos que queríamos ser definitivamente Europeus; Capitalistas; Modernos; Ocidentais. E, com raios, íamos ser mesmo bons nisso. Seriamos os mais Europeus, os mais Capitalistas, os mais Modernos, os mais Ocidentais. Éramos adolescentes com o cartão de crédito dos pais nas mãos.

Eu não via um par de óculos de Sol que não dissessem Diesel ou Prada. Eu não via um par de chinelos que não tivessem o logótipo da Versace ou D&G. Os carros que circulavam nas ruas eram predominantemente Mercedes e BMWs. Se alguém fosse de férias para um local mais próximo do que a Tailândia, manteriam tal pecado em segredo. Houve uma incrível falta de bom senso, e nenhum aviso de que esta primavera de riqueza poderia ter um fim. Tornámo-nos uma nação de sonâmbulos que caminhavam para a parte funda da sua recém-construída piscina de mármore sem se preocupar que em algum ponto perderiam o pé.

No entanto, essa irresponsabilidade foi apenas uma pequena parte do problema. A parte de leão do problema foi a emergência de uma nova classe de interesses económicos estrangeiros governados pela plutocracia, uma igreja dominada pela ganância e uma dinastia política que tornou o apelido do candidato o único factor importante para a sua eleição. E enquanto íamos pedindo emprestado e gastando (aquilo a que os economistas chamam carinhosamente "crescimento"), eles iam espremendo cada pingo de sangue que podiam através de um sistema de corrupção tão flagrante que estava ao nível de qualquer república das bananas; tão descarado e omnipresente que toda a gente se limitava a encolher os ombros e a aceitar ou tornar-se parte dele.

Claro que num simples artigo é impossível levar em conta toda a história, geografia e mentalidade que levou este canto lindíssimo da Europa a cair de joelhos e que tornou uma das mais antigas civilizações do mundo numa fonte de inspiração para piadas de mau gosto. Eu sei que é impossível exprimir a sensação de crescente desespero e desamparo que sublinha cada conversa que tive com os meus amigos e com a minha família nos últimos meses. Mas é vital que eu tente, porque a desumanização e a demonização do povo grego parece estar em pleno andamento.

Li recentemente um artigo, num conhecido meio de comunicação, que basicamente defendia que a Mafia sabe como lidar com pessoas que não pagam as suas dívidas; que um taco de basebol pode ser aquilo que faz falta para resolver a interminável confusão da dívida grega. Esse artigo justificava este raciocínio de seguida enumerando uma série de generalizações e de preconceitos tão imprecisos e venenosos que se alguém substituísse a palavra "gregos" por "pretos" ou "judeus" o autor teria provavelmente sido levado pela polícia e acusado de crimes de ódio racial.

Deixem-me agora responder à mitologia criada por esse artigo.
  • Os gregos são preguiçosos. Esta premissa está na base de muito do que tem sido dito e escrito sobre a crise, a acusação de que a nossa ética laboral Mediterrânica e frouxa está na base do nosso problema. Contudo, os dados da OCDE mostram que em 2008 os gregos trabalharam uma média de 2120 horas. Ou seja, trabalharam mais 690 horas que o alemão médio, mais 467 que o britânico médio, e 356 horas mais que a média da OCDE. Só os coreanos trabalham mais horas que os gregos. Para além disso, o período de férias na Grécia é de 23 dias, inferior à maioria do países da União Europeia, nomedamente que o Reino Unido, onde o mínimo são 28 dias e do que os impressionantes 30 dias dos alemães.

  • Os gregos reformam-se cedo. Os 53 anos têm sido cogitados como a idade de reforma média dos gregos. De tal forma, que isto é agora aceite como facto. Este dado fictício teve origem num comentário preguiçoso publicado no website do NY Times. Foi repetido pela Fox News e publicado por vários outros jornais. na verdade, os funcionários públicos gregos têm a opção de se reformar depois de 17,5 anos de serviço, mas tendo direito a apenas metade da reforma. Os 53 anos correspondem a uma média abusiva entre as pessoas que escolhem reformar-se nessa altura (geralmente para iniciar uma nova carreira) e aqueles que se mantém na função pública até terem direito à reforma completa. Olhando para os dados do Eurostat, em 2005 a idade média de reforma dos trabalhadores na Grécia (indicada no gráfico abaixo como EL para Ellas) foi de 61,7 anos; muito superior à da Alemanha, França ou Itália, e superior à média dos 27, mas ainda sim inferior à de Portugal, outro país acusado de ser um paraíso para reformados e preguiçosos. Contudo, esta média deverá subir ainda mais em ambos os países devido às medidas impostas pela troika.

  • A Grécia tem uma economia fraca e nunca deveria ter entrado para a UE. Uma das ideias feitas habitualmente lançadas sobre a Grécia é a de que a sua entrada na União Europeia se deveu apenas à motivação moral de ter sido "o berço da civilização". Tal não poderia estar mais afastado da realidade. A Grécia tornou-se o primeiro membro da União Económica Europeia depois dos 6 países fundadores (Alemanha, França, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo) em 1962, muito antes de países como o Reino Unido ou a Espanha. É membro da UE à bem mais de 30 anos. A Grécia é classificada pelo banco mundial como uma economia de elevado rendimento e, em 2005, ficou classificada em 22º lugar no ranking de desenvolvimento humano e qualidade de vida a nível mundial - acima de países como o Reino Unido, Alemanha e França. Tão recentemente como em 2009, a Grécia tinha o 24º PIB mais elevado do mundo, segundo dados do banco mundial. Para além disso, segundo o Centro para Comparações Internacionais da Universidade da Pennsylvania, a produtividade da Grécia em termos do PIB real por pessoa por hora de trabalho é mais elevado que aquele da França, da Alemanha ou mesmo dos Estados Unidos e é 20% superior ao do Reino Unido.

  • O primeiro resgate foi desenhado para ajudar o povo grego, mas infelizmente falhou. Não é verdade. O primeiro resgate foi delineado para estabilizar e ganhar tempo para a zona Euro. Foi desenhado para evitar que um novo choque ao estilo Lehman Bros afectasse os mercados, numa fase em que as instituições financeiras estavam demasiado fracas para resistir a tal choque. Segundo a economista da BBC Stephanie Flanders: "Pondo as coisas em prespectiva: A Grécia parece hoje menos capaz de pagar as dividas do que há um ano atrás - enquanto o sistema financeiro global, como um todo, parece agora em melhor estado para resistir a uma bancarrota... Assim, ganhou-se tempo para a zona Euro. Só que esta solução não funcionou tão bem para a Grécia". Se o resgate tivesse sido desenhado para ajudar a Grécia a resolver a sua dívida, então a França e a Alemanha não teriam insistido em manter contractos militares multi-bilionários. Como explicou Daniel Cohn-Bendit, líder do grupo dos Verdes no Parlamento Europeu: "Nos últimos três meses nós forçamos a Grécia a confirmar vários milhares de milhões em contractos militares. Fragatas francesas que vão custar à Grécia 2,5 mil milhões de euros. Helicopteros, aviões e submarinos alemães."

  • O segundo resgate foi desenhado para ajudar a Grécia e vai funcionar de certeza. Todos vimos Angela Merkel e Nicolas Sarkozy fazer o seu comunicado conjunto. Estava cheio de frases como "os mercados estão preocupados", "os investidores precisam de ser reassegurados", assim como dos termos técnicos do monetarismo. Pareciam uma equipa de engenheiros a fazer pequenos ajustes a uma sonda não-tripulada prestes a ser enviada para o espaço. Estava totalmente removido do discurso o facto de se estar a discutir a quantidade de miséria, pobreza, sofrimento e morte que um parceiro europeu, toda uma nação, terá de sofrer. De facto, a maioria dos comentadores concorda que este segundo pacote foi desenhado para fazer exactamente o mesmo que o primeiro fez: ganhar tempo para os bancos, às custas do povo grego. Não existe qualquer hipótese de a grécia vir um dia a pagar as suas dívidas - a bancarrota é inevitável. Estão simplesmente a ser servido interesses e tal continuará perpétuamente.
Finalmente, o maior mito de todos: os gregos estão a protestar porque querem o resgate financeiro mas não querem a austeridade que vem com ele. Esta é uma falsidade fundamental. Os gregos estão a protestar porque eles não querem mais nenhum resgate. Eles já aceitaram cortes que seriam impensáveis noutros países europeus. Imagine-se o que aconteceria se David Cameron fizesse apenas um décimo do que já fez o governo grego. Os subsídios não são pagos há já seis meses. Os salários desceram para apenas 550 erros por mês.

A minha mãe, uma mulher de 70 anos, que trabalhou toda a sua vida no Departamento de Arqueologia do ministério da Cultura, que pagou impostos, segurança social e outros descontos durante mais de 45 anos, sempre deduzidas na fonte (tal como é feito para a larga maioria das pessoas honestas e trabalhadoras - são os ricos que fogem aos impostos), teve a sua reforma reduzida para menos de 400 euros por mês. Mas ela sofre da mesma inflação galopante que afecta os preços da energia e da comida no resto da Europa.

O avô de um amigo, o senhor Panagiotis K., lutou na guerra à 70 anos - do mesmo lado que o resto da democracia ocidental. Voltou da guerra e trabalhou 50 anos num estaleiro naval, pagou os seus impostos, poupou para a sua reforma. Agora, aos 87 anos, teve de voltar para a sua aldeia natal, para trabalhar no seu pequeno terreno, plantando vegetais e mantendo galinhas. Só assim ele e a sua esposa de 83 anos conseguem obter comida para se alimentar.

Recentemente, um médico grego entrevistado na Al Jazeera explicou que até os médicos e enfermeiros estão agora de tal forma desesperados que pedem aos seus pacientes para lhes pagar dinheiro por baixo da mesa em troca do tratamento, isso em hospitais estatais que deveriam ser gratuitos. Aqueles que não conseguem pagar, vão-se embora sem tratamento e têm de sobreviver com as suas doenças. O juramento Hipocrático violado em desespero na pátria onde foi originado.

Portanto, os gregos não estão a lutar contra os cortes. Já não há nada mais para cortar. O bisturi do FMI já chegou ao osso, branco e artrítico. Os gregos compreendem que este segundo resgate não passa de mais um passo no mesmo caminho. Na verdade, o défice primário da Grécia não chega aos 5 mil milhões de euros. Os restantes 48 mil milhões servem para pagar dívidas, nomeadamente o primeiro resgate, só um terço da dívida vai exclusivamente para pagar juros. A UE, o BCE e o FMI querem agora adicionar mais uma pilha de dívidas sobre tudo isso, divida essa que será usada para pagar os juros por mais um ano. Mas os gregos não caíram no bluff. Eles disseram "Basta é basta. Não queremos o vosso dinheiro".

A Grécia sempre atraiu ocupadores agressivos A sua posição estratégica, combinada com a sua extraordinária beleza natural e história, sempre a tornaram num prémio apetecível para as forças do mal. O país emergiu depois de 400 anos de ocupação Otomana, 25 gerações durante as quais a sua identidade nacional foi tornada ilegal sob pena de morte, mantendo a sua língua, tradição, religião e música intactas.

Finalmente, nós acordamos e tomámos as ruas. A minha irmã diz-me que o que está a acontecer na Praça Syntagma é belo; cheio de esperança; gloriosamente democrático. Uma multidão de centenas de milhares de pessoas, de todas as cores políticas, ocuparam a área em frente ao parlamento. Dividem a pouca comida e água disponível. No meio da multidão está um microfone onde toda a gente pode falar, dois minutos de cada vez - podem mesmo propor medidas que são depois votadas por braço no ar. Cidadania.


E aquilo que os gregos dizem é: Nós não vamos sofrer mais só para que os ricos fiquem mais ricos. Nós não autorizamos nenhum dos políticos, que falharam tão espectacularmente, a pedir mais dinheiro em nosso nome. Nós não confiamos em vocês, nem tão pouco nas pessoas que o emprestam. Queremos um grupo completamente novo de pessoas no leme. Pessoas responsáveis, que não tenham feito parte dos fiascos do passado. Vocês que estão no poder já esgotaram as vossas ideias.

Onde quer que estejas no mundo, esta frase aplica-se.

O dinheiro é uma mercadoria, criada para ajudar as pessoas facilitando as transacções. Não é ele próprio riqueza. A riqueza está nos recursos naturais, na água, na comida, nas terras, na educação, nas habilidades, no espírito, na ingenuidade, na arte. Nestes termos, o povo da Grécia não está mais pobre hoje do que há dois anos atrás. Tal como não o estão os povos da Espanha, da Irlanda ou de Portugal. No entanto, estamos a ser forçados a suportar vários níveis de sofrimento, só para que alguns números (que representam dinheiro que nunca existiu) possam ser transferidos de uma coluna de uma folha de cálculo para outra.

Esta é a razão porque este assunto vos diz respeito directamente. Porque esta é uma batalha entre o nosso direito à auto-determinação, o direito a exigirmos um novo processo político, o direito à nossa soberania, e os interesses das grandes corporações privadas que parecem querer tratar-nos como uma manada de animais, que existem apenas para o seu benefício. É a batalha contra um sistema que assegura que aqueles que falham nunca pagam pelos seus erros - são sempre os mais pobres, os mais decentes, os mais trabalhadores que suportam o peso dos erros dos outros. Os gregos já disseram "Basta!". O que dizem vocês?

Ajudem a espalhar esta mensagem - não deixem que os meios de comunicação a façam desaparecer, como fizeram com as pessoas de Madison, no Wisconsin, ou com os Indignados, em Espanha. Façam os possíveis para que esta questão seja debatida pelas pessoas no poder. Façam perguntas. Discutam o tema no vosso bar. Acima de tudo, acordem antes que se encontrem na mesma situação que os gregos.

Nassim Nicholas Taleb é um filósofo libanês-americano que formulou a teoria dos "Eventos de Cisne Negro" - eventos imprevisíveis e inesperados que têm um impacto tremendo e só podem ser explicados à posteriori. Recentemente, durante uma entrevista, foi-lhe perguntado se as pessoas a protestar nas ruas de Atenas são um Evento de Cisne Negro. Ele respondeu: "Não, o verdadeiro Evento de Cisne Negro é o facto das pessoas não estarem ainda a fazer manifestações contra os bancos em Londres e em Nova Iorque"."


Acredito que este texto deveria ser lido por todos. Não só por todos nós que vivemos nos chamados PIGS e estamos já sob a mira de fogo do "famosos" mercados, mas também por todos os que viem noutros países e ainda não perceberam que este é um incêndio que não se vai extinguir por si, e que se não forem tomadas medidas rapidamente vai acabar por reduzir a cinzas toda a nossa civilização.