sábado, janeiro 21, 2006

Do tempo, do átomo e da célula

Entre-dentes o tempo suspirou, tanto tempo perdido a lembrar. Na velha idade, das rochas e do mar, o tempo suspirou sem tempo para cantar. Sob a luz do Sol, provecta e terna, o tempo suspirou sem tempo para dançar. Arrependido, perdido em si sem tempo para acordar, o tempo suspirou e perdeu a vez de jogar.
Num lugar distante, longe no tempo, longe no espaço, um átomo chorou a sua força nuclear. Um átomo sozinho, sem companhia, sem vida e sem par. Perdido que estava num éter sem fim, chorou a sua vida, chorou o seu lugar. Manietado por leis e por regras, ali abandonado à beira do mar, chorou o seu fado, chorou o seu pesar.
Ali numa poça, tão cheia de vida, a célula cantou no seu jeito invulgar. Perdida em danças, rodeada de paz, cantou alegrias, feliz por cantar. Dormindo sozinha, sob a luz das estrelas, sonhou com a vida, acordou a cantar. Entre-dentes o tempo sussurrou-lhe ao ouvido, ela olhou para o lado, não viu o átomo passar.

2 comentários:

Lótus Azul disse...

provecta?????!!!!!

Este homem é um doutor, carago!

Pedro, inspiradíssimo!

Pedro disse...

Obrigado!
Escrevi o texto todo assim de repente, não precisava sequer de pensar e a palavras apareciam por si.