quinta-feira, setembro 08, 2005

Quintas-feiras Culturais VII

Um poema deprimente já a pensar no Inverno que se adivinha. Pelo Mário de Sá Carneiro, o mais deprimente poeta que já nasceu neste país em eterna depressão.

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho- que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá Carneiro

4 comentários:

Zorze disse...

Excelente escolha, senhor Pedro; excelente escolha!!! Abraço!

Ju disse...

Dundy, depressivo, deslocado e poeta. Bom poema, mas tem calma que o Inverno ainda demora.
Coitadinho do Mário, sempre infeliz, sempre a querer ser uma coisa que não conseguia ser.Não aguentou.
Será que a pessoa de quem ele fala, e que a rejeita, alguma vez existiu? Será que foi desgosto de amor? Será que afinal não existia e ele criou essa pessoa, para se sentir menos só, e ao mesmo tempo colocava sobre esse ser imaginário toda a sua raiva, não o deixando ir "visitar"?
Sim, ele aqui está magoado! Com a vida ou especificamente com alguém.
Nunca tinha lido este poema dele.
:)

Freaky disse...

AAAAAAHHHHHHHHHHH!!! Bravo Pedro. Ele não era depressivo, mas antes introspectivo, lunático e maior que si próprio... Superior, só Pessoa!
Eis o meu predilecto:

Saudades de Mim

"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida (...)"

Pedro disse...

Muito bom esse poema também. Quantas vezes eu não me sinto assim!