quinta-feira, julho 21, 2005

Quintas-feiras culturais IV

Mais uma semana passou, já chegou o dia de mais uma quinta-feira cultural. Para hoje, um poema de um poeta cientista, o António Gedeão. Um poema sobre a mais inalienável verdade da vida humana... para quê tudo isto afinal? Não será pois a nossa vida um lenta questão, uma busca arrastada por um sentido que eternamente buscamos sem alcançar? Talvez por ele não existir continuamos a viver este "alegre desespero".

Poema do alegre desespero

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?



António Gedeão

2 comentários:

Zorze disse...

Não posso acreditar como há tantos indivíduos que não se apercebem disto! No fundo, ninguém ficará imortalizado no ano três mil e tal. Aliás, nem chegaremos lá. Muito interessante o post

Ana disse...

Show must go on...