terça-feira, agosto 10, 2010

Agosto

Agosto arrasta-se quente e seco, como um dia no Alentejo profundo. Ah, esperem, mas eu estou mesmo no Alentejo profundo! De momento sentindo-me desmotivado, cansado, desidratado.
Mas hoje deparei-me com algo diferente, algo que de certa forma me chocou. O ciber-espaço absorveu-nos todos, uns primeiro, outros mais tarde, em breve estaremos lá, ou antes aqui, todos. Ferramentas como o Facebook são uma forma fantástica de manter contacto com os amigos, especialmente quando estes estão espalhados por quase todos os continentes. Também os blogues servem muitas vezes a mesma função, por vezes impessoais, outra vezes demasiado pessoais. Mas comecei a achar que algo de diferente estava a funcionar, que algo de novo emergia na nossa psique colectiva quando uma amigo meu adoeceu gravemente e começou a usar um blog para manter os amigos informados sobre o seu estado. Uma forma inofensiva de manter as pessoas próximas, ou mais um passo no lento aleanamento pós-moderno da humanidade?
Hoje esse meu amigo faleceu, vítima de cancro, depois de uma batalha dura e corajosa de muitos meses. E sinto-me triste porque esse amigo partiu para parte incerta, mas algo de mais profundo inquieta o meu ser. Soube da sua morte através do facebook, acompanhei a sua luta através de um blog, mas não falo com ele há anos. Agora, nesta hora triste, pergunto-me quem velo eu à distância, o meu amigo, ou a sua existência no ciber-espaço? Quem desapareceu para sempre, a pessoa física que conheci e de quem tenho tão boas recordações, ou uma presença cibernética, um não-ser que existiu na internet, e que terá contactado comigo através deste meio, ou terá antes contactado com um meu idêntico não-ser que existe no ciber-espaço?

Porque se o meu consciente sabe que foi a pessoa que se perdeu, que foi um todo muito maior que as partes que nunca voltará a existir, naquilo que também sou e não controlo, no âmago do meu ser, a questão mantém-se. Quem perdi eu hoje? Um amigo ou um conjunto de bits e bytes, de pedaços de dados perdidos nas super-autoestradas da informação? A cada passo dado a dúvida persiste, é a internet uma benção ou o maior dos nossos erros?

1 comentário:

Margarida disse...

A importância que um blog tem é tão pouca que nunca estará à altura do ser que já não existe.
Pelo sim, pelo não, as minhas amigas têm a pass do blog para o encerrarem caso morra (ou ganhe o euromilhões, claro)