sexta-feira, dezembro 15, 2006

Da Sociedade e da Solidão

Somos 7 biliões, 7000 milhões, 7 milhões de milhares, tantos que não conseguimos sequer imaginar exactamente o que esse número significa. Contudo vivemos sozinhos, nunca vivemos tão sozinhos. Em lugar nenhum se sente tanto isso como no metropolitano, ali, apertados contra todas aquelas faces vagas de olhar distante, perdido no interior das suas próprias solidões. Vivemos cada vez mais sozinhos, trabalhamos sozinhos, com o computador como único verdadeiro colega, chegamos mesma a enviar e-mails ao colega que trabalha do outro lado da sala, demasiado ciosos da nossa solidão para nos levantar e falar-mos em pessoa. Andamos nas ruas, por entre os milhares de formiguinhas humanas que habitam as cidades, e caminhamos sozinhos, os nossos pensamentos como únicos companheiros. Chegamos a casa e vivemos sozinhos, comemos sozinhos, dormimos sozinhos até quando estamos acompanhados.

Não só vivemos sozinhos como nos orgulhamos disso, admiramos a nossa própria força, a nossa heróica capacidade de sobreviver por nós próprios, gostamos tanto de sentir que não precisamos de mais ninguém. Somos como uma rocha, um escolho isolado que resiste sozinho à força de incontáveis ondas e marés.

Mas temos amigos, e gostamos deles, e passamos bons momentos de alegria com eles, só para rapidamente nos despedirmos para voltar à companhia da nossa solidão. E apaixonamo-nos, apaixonamo-nos e amamos, mas não nos entregamos. O apego à nossa solidão é demasiado forte. Precisamos de sentir que somos capazes de viver com a solidão. Temos tanto medo da solidão que nos obrigamos a estar sozinhos para provar a nós próprios que não precisamos de ninguém.

Como foi que isto nos aconteceu? O que se alterou desde os tempos da inocência, dos tempos das tribos e das cavernas? Vivíamos em grupos, a ideia de um ser humano solitário era tão estranha como nos é agora a ideia de uma sardinha sem o seu cardume. Caçávamos em grupo, comíamos em grupo, dormíamos em grupo. Os dias eram passados a lutar em conjunto pela sobrevivência do grupo, as noites, talvez à volta da fogueira, a contar história, a partilhar experiências, a ensinar e a aprender, a beber da sabedoria dos outros.

Vivíamos para os outros e não para nós. Agora somos egoístas, tão completamente egoístas que deixamos de saber o que significa ser generoso. Somos escolhos isolados a resistir contra a força das correntes, sem perceber que aqueles pequenos mexilhões, que crescem em colónias compactas, que vivem juntos sobre o nosso bojo erodido, sabem muitos mais sobre como resistir à força das ondas, pois é em conjunto que se agarram à rocha, e não cada um por si.

5 comentários:

Anónimo disse...

acabei achando seu blog assim tão sem querer... e seu texto me caiu como uma luva. São as mesmas reflexões que estou fazendo esses dias.E não sei por qual motivo, mas é muito reconfortante saber que pelo menos nessas vivências não estamos sozinhos.Um abraço, Alice

Gemini disse...

Estou totalmente de acordo contigo Pedro. Confesso que nada estou a fazer para que o mundo mude tb... (my bad!). Mas olha que conheço algumas pessoas que rompem a solidão auto-imposta de que falas.

Uma coincidência: antes de vir para França, passei pelo Colombo onde acabei por almoçar. Estava tão cheio naquela zona do fast-food que tive de me sentar na mesa onde estava uma senhora de uns 40 e tal anos. Era uma mesa para dois e estávamos a comer frente a frente sem uma palavra. Eu ODEIO silêncios desconfortáveis (dos confortáveis gosto... duh! Frase estúpida, esquece) e meti conversa. Resumindo: ficámos a falar durante mais de uma hora das nossas vidas! A senhora era super simpática e já tinha vivido na Holanda. Diz que foi onde encontrou as pessoas com mentalidade mais aberta e mais preocupadas com o próximo. (ideia que - acho - não partilhas, mas enfim...). Falámos imenso de tudo e de nada sem nunca nos termos apresentado (não sei como se chama). Um primeiro passo é mto importante: de louvar os que não têm medo de o fazer!

Abraço

NoKas disse...

1. acho que não estamos assim tão mal como sociedade... ainda tenho fé (ou fezada) nas pessoas!

2. acho que ^"antigamente" as pessoas não eram assim tão altruistas! sinceramente acho até que a sociedade está finalmente a ganhar consciência de que não somos uma massa colectiva, mas que o outro como pessoa individual existe ao nosso lado ... e como é bom descobri-lo.

3. eu uso net, tenho blog (viciadérrima nele), mas não há computador que me agarre a uma vida sedentária e caseira! :p


bjokas

Filipe disse...

Por mim que se lixe esta merda toda. Desde que não me chateiem, por mim encantado. Se o planeta explodir daqui a 20 anos ou se a humanidade for para a conchichina daqui a 10, pois seja.

Zorze disse...

Muito bom texto amigo. Muito orwelliano, sem dúvida - gostei muito; abraço, camarada!