segunda-feira, abril 18, 2011

Ideias feitas e a questão da energia

"Um recente artigo de opinião, assinado pelo professor e físico Carlos Fiolhais, fez-me pensar que as opiniões expressas estão baseadas em ideias feitas mas infelizmente erradas. Afinal, são partilhadas hoje por muita gente, uns explorando-as porque lhes convém, outros porque, na busca de uma solução e não sabendo melhor, querem ver nelas a resposta que procuram:
1) Ideia feita: "O nuclear é uma fonte de energia inesgotável" (anos 60); o nuclear comercial está baseado em Urânio 235 e este é muito pouco abundante na Natureza, tendo provavelmente sido já consumidas metade das reservas conhecidas; isto é, temos para mais umas escassas dezenas de anos. Assim, esta solução nuclear não é sustentável e vai ser cada vez mais cara com a passagem do tempo. Em alternativa pode recorrer-se ao urânio 238 (150 vezes mais abundante) ou ao Tório (Th232). mas estes exigem outro tipo de centrais, que ainda não existem em termos comerciais, inerentemente mais perigosas e produtoras de lixo radioactivo. Mais I,D&I durante 20 ou 30 anos?
2) Ideia feita: "O nuclear é a forma de energia mais barata" - "too cheap to meter! (anos 60); ao invés, para a revista Time de 26 de Março o nuclear é "...outlandishly expensive method of generating (electricity)!"; por isso não existe nenhum reator em funcionamento que não tenha sido substancialmente subsidiado. Apesar disso e com muitos anos de amortização do financiamento, o custo do kWh nuclear em Espanha (6,4 cent. euro/kWh) é comparável ou mesmo superior ao mix das termoeléctricas a gás e carvão. E este custo não inclui: custo de desmantelamento, custo do tratamento e armazenamento dos lixos, e, claro, o custo dos terríveis acidentes que têm acontecido pelo menos 1 a cada 10 anos, nos últimos 30 anos. Também não inclui os custos extras que, depois de Fukushima, os reactores terão que ter para aumentar a sua segurança. A energia nuclear tem o enorme problema de ser operada/gerida por pessoas, nas quais se manifestam os habituais defeitos de corrupção, ineficiência, desleixo, mas que aqui têm consequências para lá do que é habitual associar-lhes. A gravidade do acidente não se deveu só ao terramoto/maremoto, mas a que muitos equipamentos essenciais tinham problemas (fissuras, por exemplo) que foram ignorados (a central tinha acabado de ser aprovada para mais de dez anos da produção).
3) Ideia feita: "A energia nuclear é limpa"; não é verdade, nem no sentido das emissões de CO2, já que é necessário construir e desmantelar a central, tratar, transportar e armazenar lixos, havendo produção de CO2 associada; mas, sobretudo, gera um novo tipo de lixo, radioactivo, altamente perigoso e "sujo".
4) Ideia feita: "As energias renováveis são caras"; ao invés, basta considerar um edifício com uma tecnologia solar passiva incorporada, ou uma lareira lá em casa; mas falando apenas de electricidade, também não é verdade: a hídrica produz o kWh mais barato em Portugal; no último leilão da eólica chegou-se ao valor de 7 cent. de euro, valor que, descontando as alcavalas que as Energias Renováveis pagam, é um valor competitivo com as centrais térmicas em Portugal, com a enorme vantagem de fixar a tarifa a 15 anos, enquanto o kWh das térmicas vai subir com a subida do preço dos combustíveis. Nenhuma outra fonte convencional, incluindo o nuclear, apresenta esta característica! Em termos de investimento, o custo do nuclear por Wpico é pelo menos três a quatro vezes superior ao da eólica ou hídrica. Ainda há algumas renováveis - por exemplo, a conversão fotovoltaíca - que são caras, mas o seu preço está a baixar de forma rápida e, mais uns escassos anos, se tivermos a inteligência de continuar a investir nelas para criar o mercado que gera quantidade e redução de preço, serão também baratas e criarão uma verdadeira revolução no sector.
5) Ideia feita: "As renováveis não nos garantem segurança de abastecimento e/ou despachabilidade"; outra ideia errada: falando apenas de electricidade, basta considerar a hídrica e a eólica (e outras no futuro) combinadas, considerando o armazenamento de energia com bombeamento reversível, para se ter completa a "dependabilidade" e "despachabilidade". Em caso de um grande acidente (tipo terramoto/maremoto), os equipamentos renováveis estão distríbuidos e introduzem resiliência no sistema, coisa que a grande centralização convencional como a da central de Fukushima não oferece no mesmo grau.
6) Ideia feita: "As Energias Renováveis não podem ter uma contribuição signiicativa"; falso, falando apenas de electricidade, em 2009 a contribuição das Energias Renováveis foi > 45% e em 2010 > 50%, será possível atingir os 70% em 2020, se prosseguirmos a política energética em curso. uma central nuclear em Portugal contribuiria < 15% para a electricidade (4% em termos de energia final). Afinal, as Energias Renováveis já são uma alternativa real ao convencional e ao nuclear, e, portanto, "o nuclear não é inevitável"!

Manuel Collares-Pereira, titular da cátedra BES de Energias Renováveis da Universidade de Évora
In "Publico" (18-04-2011)

1 comentário:

maria zubrowka disse...

Belo trabalho de passares tudo para aqui letra por letra!