terça-feira, março 29, 2005

Um silogismo simples

A eutanásia está na moda. Ele é filmes, documentários, manchetes de jornal... Mas afinal, porque toda esta confusão? Alguém me explica como é que podem haver pessoas contra a eutanásia?
Dizem-nos que temos direito à vida, dizem-nos que temos direito de escolha, liberdade de opinião de expressão... então qual é a dúvida de que a eutanásia é perfeitamente legal?

Vamos a ver: se temos direito à vida, acho que ninguém conseguirá negar que a morte (o momento da morte, não o conceito) faz parte integrante da vida, sendo mesmo, juntamente com o nascimento, um dos dois momentos mais fulcrais da mesma. Então temos direito à vida, mas subitamente perdemos esse direito no último segundo? É um bocado como dizerem às pessoas que não podem vender a sua casa, porque os seus direitos sobre ela são perdidos no momento em que a vendem e já não é delas para vender... Ou será que as pessoas que estão debilitadas ao ponto de já não poderem cometer suícidio já não têm direito à vida? Mas nesse caso porque é que o estado não as mata mesmo sem elas pedirem? (Contradição nº1)

Temos direito de escolha. Podemos, por exemplo escolher o governo da nação, decisão que potencialmente vai afectar milhões de pessoas... mas não podemos decidir quando queremos por um ponto final à nossa vida? Uma decisão que nos afecta principalmente a nós e, quanto muito, aos nossos relacionamentos mais próximos! (Contradição nº2)

Temos liberdade de opinião e de expressão. Ora uma pessoa ao escolher a eutanásia não está a demonstrar uma tomada de opinião e, de certa forma, uma expressão clara das suas ideias? De que forma é que a liberdade é defendida proibindo alguém de tomar uma decisão que é exclusivamente relativa ao seu próprio corpo? (Contradição nº3)


Básicamente à dois motivos para a maioria dos estados proibirem a eutanásia: uma razão puramente juridíca e uma razão puramente religiosa.
- a primeira é que é complicada, a nível jurídico, a acção de alguém matar outrém a pedido deste. É um caso particular, que não será muito fácil de resolver legalmente. Ora como a preguiça é a mãe de toda a justiça (pelo menos em Portugal, tenho de pensar melhor se podemos generalizar ou não!) se é complicado tornar legal, ilegaliza-se e está o problema resolvido.
- a segunda é que, apesar de teoricamente vivermos num estado laico, o estado continua a basear o seu sistema legal no princípio de que a vida (a que temos direito) é nos apenas emprestada por uma entidade superior, não sendo nossa a decisão de a devolver quando queremos. Portanto, um conceito na melhor das hipóteses medieval.


Finalmente, deixem que, com um silogismo simples, demonstre que a proibição da eutanásia é um crime contra a humanidade: A) se alguém quer morrer é porque a vida se tornou uma mera fonte de sofrimento e, como tal, uma forma se tortura; B) a tortura é proibidade pela Carta dos Direitos do Homem e considerada pelo direito internacional um crime contra a humanidade; C) Se a tortura é um crime contra a humanidade e se a proibição da eutanásia é uma forma de permitir uma tortura continuada, então a proibição da eutanásia é um crime contra a humanidade.

3 comentários:

Filipe disse...

Estou realmente surpreendido!!
Os meus parabéns!

Anónimo disse...

O teu silogismo peca por ser simples demais!
"se alguém quer morrer é porque a vida se tornou uma mera fonte de sofrimento e, como tal, uma forma se tortura" - que generalização perigosa! De qualquer forma, resolver as coisas em vida seria preferível, não?

Além disso, também discordo das contradições: pediste para viver? Terás mesmo o direito de pedir para morrer? A decisão de ter filhos (como que "criar vida") pode parecer tua, mas isso é uma ilusão (pois podes ser infértil ou a criança pode morrer, etc.) terás então direito em lhe tirar a vida? E se nem podes decidir a vida ou morte de um filho, então a de outros...
Não venhas com "a eutanásia como forma de expressão", que ainda matas mesmo alguém, mas de riso!

Podes não ser medieval, mas também não estás a ser tão "Open minded" e avançado assim, se simplificas demais a questão!
E olha que não é preciso acreditar em Deus nem ser contra a Eutanásia para ver isso!

Pedro disse...

Fixe, boas críticas ao meu raciocínio! Mas ainda não houvi nenhum argumento válido a favor da proibição da eutanásia pois não?
Se calhar porque não existem.

Eu não pedi para nascer porque antes de nascer (e le aqui "antes de ser concebido") não existia e como tal não tinha direitos. Não vejo a relação com a situação de uma pessoa viva e que decide deixar de sofrer.

E eu não estava a ser "open minded", estava simplesmente a fazer um juízo de valor. Simplesmente temos escalas de valores bem diferentes! (Não te estou a criticar, estou só a constar esse facto! Cada um é livre de pensar por si e ter as suas opiniões e valores).