Mais um blog despretensioso que pretende deixar mais algumas ideias à solta na net. Nunca se sabe quem as irá apanhar...
quinta-feira, abril 30, 2015
Músicas da Minha Vida II
Era difícil não incluir uma música dos Queen nesta selecção, mas ainda mais difícil foi escolher qual música do grupo que tanto me acompanhou durante a minha juventude (e bem depois do Freddy Mecury já ter falecido). Pensei no "We Are the Champions", que nos deixa sempre de cabelos em pé no final de cada grande final desportiva, mas nenhuma música resume tão bem a musicalidade dos Queen como este excepcional Bohemian Rhapsody. Vale pena ouvir, e pensar um pouco num tempo em que as grandes estrelas da música podiam ser feias e ter dentes tortos, desde que fossem realmente bons músicos e, sobretudo, no caso do Freddy, vocalistas extraordinários.
sábado, abril 25, 2015
Músicas da minha vida I
Decidi começar uma nova rubrica aqui no blog, em que vou apresentar, ao longo das próximas semanas, 20 músicas que marcaram a minha vida. Eram para ser 10, e eram para ser "as músicas da minha vida", mas depressa percebi que essas seriam muito mais que 10 e muito mais que 20. Serão assim 20 músicas que me marcaram, por diversos motivos.
Para começar, e porque hoje é 25 de Abril, nada melhor que arrancar com o Zeca, neste "Grândola, Vila Morena", que não sendo a minha música favorita do Zeca Afonso, é certamente a música dele que mais me marcou, pelo que tem de simbólico e porque em bom de verdade a minha vida teria sido certamente muito diferente (teria eu mesmo existido?) se aqueles jovens capitães não tivessem decidido dar o seu murro na mesa do Portugal cinzento, estagnado e garrotado pela ditadura, naquele feliz Abril seis anos antes de eu ter vindo ao mundo.
sexta-feira, janeiro 09, 2015
Do terrorismo e dos poderes
Pode parecer estranho, mas vou abrir esta minha pequena reflexão sobre o terrorismo com esta pequena citação retirada da Guerra das Estrelas "If you strike me down, I shall become more powerful than you can possibly imagine". Escrevo estas linhas depois da Europa e do Mundo terem sido chocados pelo ataque vil e cobarde de três homens ligados ao jihadismo islâmico contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo, de que resultaram 12 mortos e outros tantos feridos.
Esta frase veio-me imediatamente à cabeça ao ver a reacção dos media mundiais ao massacre dos jornalistas e cartonistas franceses. Milhões de pessoas que nunca tinham sequer ouvido falar do jornal tornaram-se instantaneamente fãs do Charlie Hebdo e muitos dos cartoons satíricos das vítimas foram vistos mais vezes em poucos minutos do que em toda a sua existência até então. Em vez de "matar o Charlie Hebdo", como se vangloriaram os terroristas, eles ajudaram a tornar a sua mensagem muito mais conhecida. Em vez de atacarem a liberdade de expressão, como pretendiam, acordaram as pessoas para a necessidade premente de proteger cada vez mais nos nossos dias este valor básico do conceito civilizacional que a Europa deu ao mundo.
Contudo, esta frase, pelo menos neste contexto, tem obviamente dois gumes. Ela aplica-se também perfeitamente à resposta habitual americana (e tantas vezes também europeia) ao problema do terrorismo: eles atacara-nos, vamos lá largar umas quantas bombas e matar uns quantos por lá, sem olhar muito ao problemas subjacentes que criaram a situação actual. A explosão recente do jihadismo, hoje personificada pelo Estado Islâmico, não resulta de nenhuma maldade subjacente do Islão, ou sequer de facções particularmente radicais do Islão. Ela resultou, de um fogueira que arde há muito naquela região do globo e que é atiçada de cada vez que os países ocidentais intervém militarmente na região. Tal como como Obi-Wan Kenobi na Guerra das Estrelas, também o terrorismo se torna muito mais forte de cada vez que é atacado com recurso à violência cega. Quando os "danos colaterais" das bombas ocidentais matam um pai de família, não se criam apenas novos orfãos, criam-se novos orfãos que quando mais tarde tiverem de escolher entre viver na miséria ou morrer na vingança, tenderão a escolher a segunda. Cada vítima de um ataque militar é mais um argumento na mão dos fanáticos que pretendem incendiar o ódio contra o ocidente.
Como se deverá então combater o terrorismo? Sinceramente não sei. Imagino que até certo ponto seja mesmo necessário recorrer à violência e à repressão, mas apenas como uma solução temporária. Uma verdadeira solução para o problema passaria por eliminar as causas do terrorismo. Por um lado, a desigualdade económica que permite que seja preferível arriscar a vida numa barcaça ou aliar-se ao Estado Islâmico a viver na total miséria e desterro em que definham os cidadãos de tantos países. Por outro lado, a falta crónica de educação, educação no sentido académico e não moral do termo. A falta de educação universal, para todos e para todas, sem distinção de sexo, classe social ou etnia. No fundo é esta a única verdadeira diferença entre a Europa e o mundo islâmico. Foi a educação, que num sentido muito lacto significa a ciência, a filosofia, a arte, que transformou a Europa de um pântano teocrático medieval na Europa moderna que, com todos os seus muitíssimos defeitos, é ainda assim um dos poucos garantes dos valores máximos da humanidade no mundo actual: a justiça, a liberdade, o humanismo.
Em conclusão, espero que os nossos governantes possam ver que o terrorismo só atinge o seu objectivo se lhe for permitido tornar-se uma desculpa para destruir os nossos valores. A tragédia não é ter sido atacado um jornal em França, na verdade este ataque tornou-o inimaginavelmente mais poderosos. A tragédia seria ver estes ataques levarem a que a Europa pusesse em causa a liberdade e a igualdade em prol de uma ideia efémera de segurança. A tragédia seria este ataque servir de desculpa para continuar a atacar, marginalizar ou excluir cegamente os cidadãos do mundo islâmico, pois isso só servirá par continuar a tornar os terroristas muito mais poderosos do que nós imaginamos.
sexta-feira, setembro 19, 2014
Coisas que aprendi hoje - 2
Aprendi hoje que existe uma Associação Portuguesa de Killifilia (ACK). Para começar, eu não sabia o que eram killies, ou kill fishes. Tratam-se de peixes Cyprinodontiformes ovíparos que ao que parece são populares entre os aquariófilos ao ponto de justificarem a existência de uma associação que lhes é dedicada exclusivamente. Os membros da associação, que presumo serem chamados killiófilos, são dedicados ao ponto de organizarem anualmente uma convenção que atrai interessados do nosso e de outros países. Foi aliás por ver o cartaz da XIV Convenção Internacional APK, a realizar de 17 a 19 de Outubro em Torres Novas, que aprendi esta coisa hoje.
terça-feira, setembro 09, 2014
Coisas que aprendi hoje - 1
Vou iniciar hoje uma nova rubrica do blog, a que chamarei simplesmente "coisas que aprendi hoje". Vai ser exactamente o que o nome indica, a minha observação de uma coisa que aprendi num determinado dia e que ainda não sabia antes.
Para a primeira "coisa que aprendi hoje", uma palavra. Aprendi hoje que se diz salgalhada e não salganhada, como penso que a maioria das pessoas (a começar por mim) diz. Devo esta descoberta ao corrector de texto do Firefox. Diz o site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa que a palavra salganhada não existe na língua portuguesa, trata-se meramente de uma deturpação da palavra correcta, salgalhada.
Salgalhada significa confusão, mixórdia ou trapalhada e a sua etimologia provirá de salgar + alho + ada.
sexta-feira, outubro 04, 2013
O individualismo e as crises
Uma das melhores coisas á cerca do hábito da leitura é a forma como, por vezes, uma só frase lança a nossa mente numa direção totalmente diferente e imprevista. Foi o caso no outro dia enquanto lia o livro "This Side of Paradise" de F. Scott Fitzgerald. A certo ponto, o protagonista Amory Baines, recentemente regressado do serviço militar na primeira guerra mundial, atira esta frase durante uma discussão filosófica com um amigo seu:
"I'm not sure that the war itself had any great effect on either you or me – but it certainly ruined the old backgrounds, sort of killed individualism out of our generation."
Esta frase deixou-me a pensar longamente. Será que este individualismo destrutivo que tanto caracteriza a nossa sociedade actual se deve à falta de eventos dramáticos, como as grandes guerras, que tratem de o eliminar de cada nova geração que surge? A questão do valor das guerras e outras crises como elemento formador das mentalidades é frequentemente falado quando são discutidos os actuais líderes europeus, que não tendo vivido a guerra como os seus antecessores não compreendem que o valor da União Europeia é algo de muito mais profundo que a mera prosperidade económica, é antes a segurança de que a Europa não caíra novamente numa hecatombe como as duas guerras mundiais. Mas poderá este ser um factor mais vasto, que abranja toda uma geração?
Independentemente das guerras, catástrofes humanitárias e crises económicas e que vão assolando o globo, os povos da Europa e da América do Norte têm vivido um período de prosperidade sem precedentes nas últimas décadas. Mesmo a actual crise económica que tanto tem afectado Portugal e o sul da Europa, continua a não ser um drama sequer remotamente equivalente ao que foram por exemplo as duas guerras mundiais ou a crise económica dos anos 30, graças aos benefícios e seguraças dos estados sociais que entretanto foram instaurados na Europa. Contudo, toda este prosperidade tem também exacerbado o individualismo e o materialismo, e parece hoje cada vez mais evidente que esses dois factores estão a minar a mesma prosperidade que os poderá ter criado, destruindo o conceito de solidariedade em que assentava a União Europeia e permitindo que cada vez existam franjas maiores de elementos que uma vez excluídos pela sociedade dificilmente conseguem voltar a encontrar o seu lugar.
Será que só durante os períodos de extrema necessidade comum é que conseguimos ultrapassar o individualismo latente e perceber que a união faz a força? Será que sem sofrer em conjunto não conseguimos ver os outros como iguais? Esatremos nós intrínsecamente votados a uma eterna sucessão de ciclos de individualismo - catástrofes - união e prosperidade - regresso ao individualismo?
quinta-feira, maio 16, 2013
400 ppm
Foi anunciado na semana passada que o mundo ultrapassou pela primeira vez na história da humanidade a barreira das 400 parte por milhão (ppm) de concentração de dióxido de carbono na atmosfera. A notícia foi recebida com alguma, mas devo dizer moderada, preocupação por governantes e responsáveis vários e com o habitual enterrar da cabeça na areia daqueles que insistem em negar que o Homem está a alterar de forma decisiva as condições de habitabilidade do planeta
Esta notícia suscita-me várias interpretações. 1. Enquanto cientista e pessoa geralmente bem informada sobre esta situação, este novo dado assusta-me moderadamente, não por ser inesperado, mas antes por confirmar cenários piores do que aquilo que seria talvez de esperar. 2. Enquanto cidadão, impressiona-me pela falta de compreensão que a nossa sociedade tem do significado deste número, a começar pelos nossos governantes e sobretudo pelos meios de comunicação que demonstração a sua habitual e completa iliteracia em assuntos cientifico-técnicos. 3. Enquanto pessoa, e desde à pouco tempo pai, aterroriza-me profundamente porque eu tenho, se calhar infelizmente, uma noção bastante boa do que significa realmente esta notícia para o nosso futuro.
Comecemos pelo significado exacto da notícia. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera tem uma alta correlação com o efeito de estufa na atmosfera do nosso planeta, pelo que um aumento da sua concentração significa que esse efeito de estufa vai aumentar, tornando o planeta em média mais quente com consequências para o sistema climático global. A concentração de dióxido carbono antes de começar a revolução industrial rondava os 280 ppm, sendo esse o valor de referência sobre o qual devemos ponderar esta notícia. Sabemos que num passado distante esta concentração sofreu grandes flutuações, em alguns períodos foi bem mais baixa e noutros bem mais elevada, mas essas variações deram-se geralmente ao longo de muitos milhares ou milhões de anos, um ritmo bem diferente do que observamos hoje, e em algumas épocas podem ter estado ligadas a fases catastróficas para a vida na Terra.
Desde meados do século passado, a concentração desse gás tem sido monitorizada, sendo conhecida a sua variação, que é mostrada neste gráfico:
Como é evidente no gráfico, a concentração tem subido consideravelmente e, apesar da flutuação sazonal devida ao efeito das plantas durante o verão no Hemisfério Norte, é evidente que todos os anos o pico é mais elevado. Os 400 ppm são relevantes não só por serem um número redondo, mas também porque têm sido considerados por muitos cientistas como um ponto de não retorno. Isto é, se ultrapassa-se-mos esse valor, as alterações efectuadas ao planeta seriam irreversivelmente graves. Claro que isto é meramente uma meta moral, os 399 ou os 401 não são muito mais nem menos graves que os 400 ppm.
Passando então ao ponto 1, esta notícia é algo preocupante porque não só vem confirmar os cenários previstos pelo Painel Internacional para as Alterações Climáticas (IPCC) da Nações Unidas, mas vem sugerir que dos vários cenários apresentados por esse comité, um valor de 400 ppm no ano 2013 corresponde à situação prevista no pior cenário previsto. Acho que não preciso de explicar a gravidade dessa constatação, não só as coisas estão a correr mal, como estão a correr o pior possível. As consequências climáticas desse cenário são no mínimo desastrosas e significam nada menos que uma total alteração das nossas vidas e do mundo com o conhecemos ainda dentro do período das nossas vidas. Contudo, isto não é o mais grave nem mais assustador, deixando eu este aspecto para o ponto 2.
Como dizia acima, o meu ponto 2 refere a total ignorância exibida pelos nossos governantes e pelo meios de comunicação em relação a esta matéria. Alguns políticos acenaram que sim, que achavam isto grave, para a seguir voltarem à sua actividade habitual de inventar crises económicas e roubar aos pobres para dar aos ricos. Eu não esperaria outra coisa deles. Mais grave para mim é a fraca cobertura mediática deste assunto. Poderão haver excepções, mas a esmagadora maioria dos jornalistas leram o número: 400 ppm, deram uma vista de olhos para as previsões do IPCC e noticiaram que este valor pode causar uma subida da temperatura média do planeta de até 2,4ºC até final do século XXI, que certamente teria consequências graves, mas não tem sequer semelhança com o que estamos aqui a ver. A verdade é que essas previsões diziam respeito às consequências climáticas do valor de concentração de dióxido de carbono quando esta subida vier a estabilizar, assumindo que a humanidade aprendia com os seus erros e tomava medidas drásticas para acabar com a emissão em larga escala deste gás até 2020 ou no máximo até 2050. Ora o que o gráfico que pus acima nos diz não é que a concentração de dióxido de carbono vai estabilizar nos 400 ppm, o que ele nos diz é que vamos passar este ano os 400 ppm, mas que nada indica que a subida não vai continuar. Na verdade, o que interessa retirar desse gráfico são as taxas de incremento do dióxido de carbono, para tentar perceber se estamos a tender para uma estabilização no futuro. Eu estive a fazer um pequeno exercício de calcular a variação da concentração a cada 5 anos no gráfico. O resultado é outro gráfico:
O que aqui vemos é que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera não está a estabilizar, na verdade está a subir mais depressa hoje do que aquilo que acontecia nos anos 80 ou 90, provavelmente devido à crescente industrialização de países anteriormente sub-desenvolvidos e devido ao total falhanço das políticas globais de controlo da emissão de gases de efeito de estufa. Isto significa que a verdadeira notícia não são os 400 ppm, a notícia aqui é que a humanidade não só não está a conseguir resolver o problema como ele se está a agudizar, pelo que tudo indica que a concentração de dióxido de carbono vai continuar a subir e que como tal a previsão de subida de temperatura até final do século será substancialmente superior aos tais 2,4 ºC. Ora é este gráfico que me leva directamente ao meu terceiro ponto.
No meu ponto 3 queria pensar nisto do ponto de vista pessoal e emotivo. O gráfico que fiz com as taxas de variação evidencia que a nossa acção vai levar a uma alteração radical nas condições de habitabilidade do planeta. Não sou perito na matéria, mas do que tenho lido, a ideia geral que os nossos cientistas têm é que uma subida das temperaturas médias até aos 2 a 2,5 ºC, embora causando graves alterações nos padrões climáticos globais, permitiria à humanidade manter um estilo de vida semelhante ao actual, desde que esse estilo de vida seja adaptado a uma subsistência com baixa produção de gases de efeito de estufa. Ora se, como tudo parece indicar, estamos no caminho dos piores cenários projectados e nada sugere que a situação tenha tendência a melhorar, então o mais provável é que a subida nas temperaturas médias seja bem superior ao 2,5ºC, talvez até mesmo chegando aos 4ºC, 5ºC, 6ºC. Subidas desse tipo significam que as condições de habitabilidade do planeta vão ser violentamente alteradas não só até ao final do século como até mesmo já durante as nossas vidas. Secas, fenómenos climáticos extremos, extinções, redução drástica da produção agrícola mundial, fome, guerra, doenças, morte em massa de animais e plantas, provável redução acentuada da população mundial tornam-se todos cenários não só possíveis mas prováveis.
Isto significa que vamos sofrer pessoalmente com as consequências desta notícia, significa que muitas pessoas vão morrer devido a este facto, significa que os dramas que se vivem já em algumas zonas do mundo, mas que nos parecem ainda distantes a nós que viemos protegidos no "primeiro mundo" terão tendência a agravar-se e a espalhar-se também à Europa e à América do Norte. Isto significa também que falhámos enquanto sociedade. O problema foi detectado a tempo, mas não soubemos actuar sobre o problema e comportarmo-nos como a proverbial rã que não percebe que a água está a aquecer gradualmente e acaba cozida. Significa também que em vez de criarmos um mundo melhor para os nossos filhos, lhes vamos deixar como herança o inferno. Aliás, mais grave do que isso, a verdade é que agora já é tarde demais para evitar esse futuro. A verdade é que podemos ter até já passado o ponto de não retorno para a extinção da nossa espécie.
segunda-feira, abril 15, 2013
Os meus quarteis-generais
E de momento, e durante os próximos três anos pelos menos estas serão as minhas bases de actividade:
CESAM (Centro de Estudos do Ambiente e do Mar)
MUNHNC (Museu Nacional de História Natural e Ciência)
CESAM (Centro de Estudos do Ambiente e do Mar)
MUNHNC (Museu Nacional de História Natural e Ciência)
sexta-feira, novembro 16, 2012
Postais das Selvagens
33 –
O Regresso
| Uma última vista da Selvagem Grande, já a bordo do Schultz. |
As seis semanas que passei na Selvagem Grande foram um
período extremamente agradável, de que quase só recordo momentos
felizes, calma e também sentido de dever feito. Passadas as seis
semanas, com o trabalho levado a bom porto e as maravilhas da ilha
quase todas descobertas, estava na hora de regressar à realidade.
Claro que haviam também saudades, e muitas. Saudades da
família, e sobretudo da minha Ana que enquanto eu estava na Selvagem
Grande ia incubando na barriga o nosso rebento, o pequenito João que
deverá nascer em Outubro se tudo correr bem. Saudades também de
casa, da "civilização" e do outro Portugal que está
colado à Europa.
Desta vez, por incrível que pareça, a rendição
correu sem percalços. O navio da marinha, o balizador N.R.P. Schultz
Xavier chegou à ilha no dia previsto e a cansativa tarefa do
transbordo de pessoas e mantimentos entre o navio e ilha correu
dentro do previsto. Partimos da Selvagem Grande por volta das 16
horas, mas continuamos a ver a ilha no horizonte durante várias
horas, à medida que o sol ia baixando para um fenomenal pôr-do-Sol
do alto mar. O Schultz é um navio bem maior que o Cuanza com que
cheguei à ilha, pelo que desta fez tive direito a um beliche para
dormir. Tínhamos também preparado um farnel para a viagem, pelo que
a viagem correu desta vez sem sobressaltos de qualquer tipo.
Lembro-me apenas do tal pôr-do-Sol, das cagarras e almas-negras que
patrulhavam as águas em nosso redor e de um grupo de
golfinhos-malhados que a certo ponto se aproximaram muito do navio e
o acompanharam durante alguns minutos na sua habitual folia de saltos
e mergulhos.
Chegámos ao Funchal de madrugada, e aproveitámos ao
máximo esse dia que seria o único na Madeira. Passeamos um pouco
pela ilha e pelo Funchal e fomos experimentar melhor as ponchas, só
para confirmar que as da Selvagem Grande eram realmente boas... claro! No
dia seguinte o voo para Lisboa era logo pela manhã. Acabara a
aventura nas Selvagens, mas pode ser que hajam mais capítulos em
anos próximos.
terça-feira, novembro 06, 2012
Postais das Selvagens
32 –
Jogos Olímpicos
![]() |
| Pode não ser prova olímpica, mas muito exercício fizemos a caminhar na ilha. |
Com o trabalho dos últimos dias quase me esqueci de
referir aquela que foi a principal ocupação a ocupar os tempos
livres ao longo da segunda metade da segunda estadia: os Jogos Olímpicos. A olimpíada de Londres de 2012 decorreu durante a minha
segunda estadia na Selvagem Grande e nós, os 6 ilhéus temporários,
seguimos atentamente os feitos olímpicos dos nossos pares.
Do judo ao ping-pong, da natação ao remo, do atletismo
à ginástica e dos desportos colectivos aos desportos mais radicais,
tudo o que a RTP tinha para nos mostrar nós seguimos. Até podíamos
não perceber muito de alguns desportos, mas ao fim de uns dias já sabíamos distinguir um ippon de um waza-ari no judo e já percebíamos
até quem eram os melhores nas várias provas de ginástica.
A prestação dos atletas portugueses foi a habitual
miséria, salvando-se a excelente prestação das equipas de remo.
Dos outros, muitos poucos conseguiram sequer igualar os seus records
pessoais, que penso ser o mínimo que se exige nuns jogos olímpicos,
com a agravante de procurarem sempre um discurso segundo o qual a
culpa dos seus fracassos não era deles mas da falta de apoio, da
hora a que a prova tinha sido disputada ou certamente dos
alinhamentos entre Júpiter e Saturno. Enfim, o portuguesismo no seu
pior. Mas felizmente existiam milhares de outros atletas de outras
nações que nos maravilharam com os seus feitos, quer fossem os
mortais na barra fixa do ginasta holandês Epke Zonderland, as
braçadas infernais de Michael Phelps e companhia na piscina
olímpica, o passo de gazela de Usain Bolt nas provas de velocidade ,
ou as jogadas espectaculares das equipas de voleibol ou de basquetebol.
Foram muitas tardes bem passadas a discutir o mérito de
um golpe de judo, a qualidade de uma cambalhota ou também, porque
não, a beleza das jogadoras de voleibol dos países de leste. Claro
que se houvesse uma medalha de ouro para a pesagem de crias de
alma-negra, essa cairia para Portugal certamente.
domingo, novembro 04, 2012
Postais das Selvagens
31 –
Noite sim, noite sim
A última grande tarefa que me sobrava antes do final da
estadia era a colocação dos geolocators, os pequenos aparelhos que
recolhem informação sobre as rotas migratórias das aves. Como as
almas-negras só vêm ao ninho durante a noite, este trabalho tinha
de ser feito de noite, tendo ocupado a maior parte das noites da
minha última semana na Selvagem Grande. Comecei esta tarefa a seis
dias do final, pois interessava adiar a colocação dos aparelhos
para o mais próximo possível do fim da estadia, mas esperava
conseguir despachar a tarefa em duas ou três noites. Não foi assim.
A primeira noite rendeu apenas quatro aves capturadas e
acopladas com um geolocator, o que sugeriu logo que não ia ser assim
tão fácil. A segunda noite rendeu mais quatro, mantínhamos o ritmo
da véspera, mas a terceira noite rendeu apenas três. Com um total
de vinte aparelhos para colocar, as noites começavam a faltar, pelo
que à quarta noite decidi levar mais longe o esforço de campo.
Fiquei a noite toda no planalto, visitando os ninhos de hora a hora.
Foi uma noite longa. A primeira volta foi feita pela
meia noite e trinta, na companhia da Maria e do Cristóbal, e
encontramos três aves. Era um bom começo para a noite, mas
continuavam a sobrar seis geolocators a colocar. Finda a primeira
ronda, os meus colegas voltaram a casa, pois teriam trabalho para
fazer de manhã e eu fiquei sozinho no planalto. A noite estava
espectacular, com um luar que permitia caminhar sem luzes e sem
grandes frios apesar do vento que se fazia sentir. Entre rondas
descansava um pouco num pequeno barracão onde os vigilantes guardam
material, na companhia de umas quantas osgas, e de hora a hora ia
visitar os ninhos. As estrelas estavam lindíssimas, e foi uma
experiência interessante passar uma noite sozinho num local tão
deserto, mas a noitada, que se prolongou até ás sete hora da
madrugada seguinte, só rendeu mais três aves. Apesar do esforço
brutal, tinha ainda de capturar mais três aves nas duas derradeiras
noites da estadia, mas antes tinha de recuperar o corpo da noitada...
Infelizmente, depois dos trinta uma noite em claro tem o mesmo efeito
que uma bebedeira daquelas de proporções épicas.
No dia seguinte fui-me arrastando, sem forças nos
músculos e sem actividade no cérebro, tentando poupar energia para
mais uma subida nocturna, e fazendo figas para que esta fosse a
última subida nocturna ao planalto. Não me apetecia mesmo nada ter
de subir na última noite, que será de arrumações e preparativos
para a viagem, mas não depende de mim, depende das almas-negras e
das suas vindas aos ninhos. Chegada a noite, com o corpo já mais
acordado, subimos ao planalto. Apanhamos rapidamente dois indivíduos
e parecia que íamos conseguir completar o trabalho nessa noite, mas a
última anilha de plástico, necessária para fixar o geolocator à
pata da ave, partiu-se e mais uma vez ficou trabalho para fazer para
o dia seguinte. Para compensar este azar, o universo brindou-nos com
um céu absolutamente fabuloso, pintalgado de infinitas estrelas, com
a via láctea a rasgar o céu ao meio. Um céu como nunca viram
aqueles que nunca puderam fugir à poluição luminosa do continente
Europeu, absolutamente perfeito, a que se juntaram duas estrelas
cadentes para compor o ramalhete.
No dia seguinte colocamos finalmente o último aparelho.
Missão cumprida. Faltava agora fazer as arrumações e limpezas e
esperar pela rendição.
sexta-feira, outubro 26, 2012
Postais das Selvagens
30 –
Vampiros
| Numa das noites encontramos duas almas-negras a lutar violentamente. |
Na última semana começamos o trabalho de recolha de
sangue de vinte adultos e crias nos ninhos novos que fomos detectando
nas semanas anteriores. Tínhamos um total de trinta e quatro ninhos,
número mais que suficiente se não se desse o caso de alguns ninhos
terem sido predados desde que foram encontrados e do problema já
referido de os adultos não virem todas as noites ao ninho. Na
primeira noite deste trabalho subimos ao planalto por volta das 22
horas, fazendo uma ronda dos trinta e quatro ninhos. Nos primeiros
cinco ninhos encontramos quatro adultos e parecia serem favas
contadas encontrar vinte em trinta e quatro... mas não foi. Depois
da sorte inicial apanhamos vários ninhos que haviam sido predados e
muitos em que a cria estava sozinha, pelo que no final da ronda
tínhamos apenas onze adultos, ainda assim um excelente resultado,
outra noite semelhante e estaria a amostragem feita.
No dia seguinte pela manhã começamos a amostrar as
crias. Este trabalho não levanta grandes problemas, pois as crias
estão sempre "em casa", mas recolher uma amostra de sangue
de uma cria é um pouco mais difícil por serem mais pequenos e é
uma daquelas tarefas que sabe um pouco mal fazer. Mas correu bastante
bem, apesar de pequenas a veia braquial, na asa, é já perfeitamente
visível, um risco escuro sobre o osso branco, logo abaixo da pele,
junto à articulação correspondente ao nosso cotovelo. Neste
primeiro dia amostrámos treze crias, parando apenas porque o vento
fortíssimo que se fazia sentir nesse dia acabou por empurrar tantas
poeiras para o meu olho que me causou forte incómodo e a necessidade
de voltar à base para lavar o olho e colocar algumas gotas de
colírio.
Chegada a noite, e com os olhos já em melhor estado,
subimos novamente ao planalto para continuar a nossa actividade de
vampiros. A noite correu bastante bem, não só colhemos as nove
amostras de sangue de aves adultas que faltavam como ainda colocamos
os primeiros quatro geolocators para seguir a migração. O vento
continuava assustador, uivando aos nossos ouvidos sem para, e era
necessário manter sempre os olhos semi-cerrados para nos protegermos
da poeira que andava no ar. Apesar da tormenta, o único percalço
foi uma alma-negra que por stress ou vingança me vomitou em cima uma
mistura de lulas e peixe, a sua refeição mais recente. Acho justo,
eu também lhes ando a espetar agulhas. Para acabar a campanha
vampiresca, na manhã seguinte recolhemos amostras de mais sete
crias. Com o treino era já bastante fácil colher sangue das veias
diminutas das asas das crias, mas continuava a saber um pouco mal
perturbar assim animais tão pequenos e jovens.
Missão cumprida! Mas ainda faltam colocar dezasseis
geolocators pelo que temos ainda pela frente mais algumas noites de
trabalho nos poucos dias que faltam da estadia.
terça-feira, outubro 16, 2012
Economia
Nos nossos dias, fruto da crise, toda a gente fala de economia. Em muitas áreas, esse tipo de cacofonia resulta em que muita coisa absurda seja dita, sobretudo por todos aqueles que não têm formação na área e gostam de mandar bitaites, como acontece por exemplo em matérias legais ou em matérias científicas. Curiosamente, na discussão económica, parecem ser os próprios economistas quem diz as coisas mais absurdas, sendo o cidadão comum aquele que parece perceber melhor a economia.
Esta aparente contra-senso resulta, na minha opinião, do facto de todos os cidadão serem na verdade peritos em economia, pelo menos em micro-economia, por viverem todos os dias da sua vida com limitações económicas moderadas a severas. Extraordinariamente, muitos economistas que até tiverem uma formação técnica aprofundada, são incapazes de compreender a economia real porque nunca passaram por ela, muitos saíram das faculdades diretamente para tachos, partidários ou não, sem nunca terem vivido o que é realmente a economia.
Convém aqui evitar a generalização injusta. Existem muitos economistas racionais e competentes, tanto do lado direito como do lado esquerdo do debate político. Podemos não concordar com as opiniões ideológicas deles, mas temos de aceitar a sua competência técnica.
Depois desta longa introdução, gostaria de dar o meu contributo científico a esta temática. Posso não ter formação técnica em economia, só tenho o tal saber empírico de viver com os euros contados, mas tenho bastante formação matemática e estatística, por um lado, e tenho outra grande ferramenta à minha disposição que os economistas desconhecem, o método científico.
O método científico é o modelo filosófico empirista que permitiu à ciência usar a realidade para ir ao longo do tempo corrigindo e aperfeiçoando as suas teorias. Na sua base, este modelo resume-se a algo muito simples: gerar modelos (por outras palavras, hipóteses); fazer previsões com base nesses modelos, testar essas previsões com base em dados empíricos, isto é, com base na realidade; aceitar o modelo se os dados o confirmarem ou rejeitá-lo em caso contrário; com base nestes resultados gerar novos modelos mais correctos. Foi este método nos permitiu perceber o Universo desde os seus elementos mais elementares à sua organização à escala cósmica, que nos permitiu compreender o funcionamento dos mais complexos sistemas do corpo humano, ou recapitular a história do nosso planeta ao longo de milhares de milhões de anos.
Infelizmente, a maioria dos economistas modernos segue o seu próprio sistema, que poderemos chamar de acéfalo, que se resume a copiar um modelo que alguém já inventou, acreditar cegamente nele e negar quaisquer dados reais que provem que este modelo está errado. É o caso óbvio da chamada receita da austeridade que está em voga na Europa actual.
Olhemos então para a realidade do mundo actual. Qual é o problema que se nos coloca? Será mesmo as devidas excessivas dos países, a conversa falaciosa do "vivemos acima das nossas possibilidades"? Olhando para a questão como um leigo, a mim parece-me óbvio que se a economia funcionava bem nos anos 60 e 70 e em larga medida nos anos 80 (não no caso de Portugal porque vivíamos numa ditadura, mas estou a falar do mundo ocidental em geral), o que temos de perguntar realmente são quais as diferenças entre a economia actual e a economia desse período próspero.
As principais diferenças parecem a mim resumir-se a uma: houve uma desregulação maciça dos mercados financeiros que resultou numa transferência brutal de riqueza da economia real (isto é das empresas produtoras e dos trabalhadores) para a finança, isto é, para os fundos de investimento, para os grandes bancos, para a especulação bolsista.
Poderão dizer que houveram outras mudanças, que a demografia alterou-se profundamente, aumentando a proporção de pensionistas, e que os gastos com saúde aumentaram exponencialmente, devido aos avanços médicos, ao envelhecimento da população e, também à especulação vergonhosa da empresas da área médico-farmacêutica. Isso é verdade, mas no mesmo período a riqueza dos países cresceu também de forma exponencial, pelo que esses gastos deveriam ser possíveis de comportar, apenas acompanhados de um eventual aumento da idade de reforma e provavelmente de tectos para evitar desperdiçar dinheiro em reformas milionárias, aliados a apoios aos PPRs, com foi feito em muitos países. A verdade é que dos anos 60 até hoje o PIB português subiu cerca de 28000% (dados Pordata) pelo que o argumento de que não havia dinheiro para suportar o nosso nível de vida é pura falsidade.
O verdadeiro problema, que quase nenhum economista discute, é que do bolo total da riqueza produzida em cada país, a percentagem representada pela produção e pelos trabalhadores caiu e a percentagem ocupada pelo capital especulativo, e não produtivo, cresceu. Infelizmente não consegui encontrar dados sobre o nível desta mudança, mas é por demais óbvio que tal se passou, não sequer alvo de discussão. Ao mesmo tempo, em vez de se re-equilibrar a balança fiscal para a fazer incidir mais sobre o capital, onde está agora o dinheiro, e menos sobre a produção e as famílias, onde ele diminui, a tendência foi a inversa. De 1995 para 2010 a razão entre os impostos cobrados aos rendimentos e à produção e os impostos cobrados ao capital aumentou de 1:320 para 1:450 (dados Pordata). Pior que isso, 2010 foi já um ano de crise, em que se aumentaram alguns impostos sobre o capital. Nos anos antes da crise, fruto da crescente não-taxação do capital esta razão chegou aos inacreditáveis 1:120.000 (dados Pordata).
Usando uma metáfora para descrever esta situação, imaginemos uma família que vive no campo e cuja subsistência depende de uma horta e de uma seara. Como a horta representava no passado a maior fatia da sua produção de alimentos, a sua alimentação compunha-se de 80% de produtos da horta e de 20% de produtos da seara. Ao longo dos anos, a horta foi produzindo cada vez menos alimentos, enquanto a produção da seara aumentou. Contudo, esta família em vez de passar a consumir mais comida da seara, aumentou ainda mais a sua dependência da horta, para 90%. Todos os anos deixam grandes quantidades de cereal apodrecer, e passam fome porque a horta agora produz menos. Enquanto morrem de fome, olham para a imensa pilha de cereais que vão para o lixo e dizem: "Vamos morrer à fome porque andamos a viver acima das nossas possibilidades, comíamos mais do que aquilo que produzíamos". Obviamente isto é um total absurdo. Mas é exactamente este o cenário delineado pela maioria dos economistas.
Como disse acima, não encontrei dados sobre o nível de transferência de riqueza da produção e do trabalho para o capital, mas vamos assumir que foi uma transferência meramente moderada, passou de 60/40 para 40/60. Vamos também assumir que a disparidade entre a taxação de cada lado era mais moderada, cobramos 60% ao trabalho e 40% ao capital, de acordo com a proporção deles na riqueza. Obtínhamos então um ganho total de 60*0.6 + 40*0.4 = 52 nos impostos. Passamos para a situação nova, em que o capital passou a representar 60% da riqueza, mas nem vamos reduzir ainda mais a taxação do capital, como fizeram os nossos governos, vamos meramente manter a taxação antiga, isto é, 60% sobre o trabalho e 40% sobre o capital. Passamos agora a obter um ganho total de apenas 40*0.6 + 60*0.4 = 48 nos impostos. O país, sem gastar dinheiro com nada, sem gastos milionários, sem elefantes brancos e sem aldrabices políticas passou a ganhar menos 7,8%. Isto é, o défice público aumento quase 8% só com esta moderada transferência de riqueza para o capital e sem piorar a justiça fiscal.
Agora vamos assumir um cenário mais duro, e possivelmente mais realista. Vamos assumir que a transferência de riqueza do trabalho para o capital foi de tal forma que a razão entre os dois passou de 70/30 para 30/70. Vamos também assumir que, como os dados o provam, a taxação ao capital em vez de aumentar, diminuiu, ou seja no inicio taxávamos a 70% o trabalho e a 30% o capital e no final taxamos o trabalho a 70% e o capital a 20%. No início obtínhamos um ganho de 70*0,7 + 30*0,3 = 56 nos impostos. Depois da riqueza passar para o capital e de os impostos ficarem ainda mais injustos, passamos a ter um ganho de 70*0,2 + 30*0,7 = 35 nos impostos. Neste cenário o país agravou o défice público em 37,5% sem ter gasto um tostão no que quer que seja. Convém perceber que os números reais são muitos mais assustadores porque a razão entre os impostos do capital e do trabalho é imensamente mais díspar, como foi referido acima com base em dados oficiais, pelo que a consequência desta transferência de riqueza de uma área para a outra é substancialmente mais gravosa para o défice do estado.
Acho que fica aqui bastante claro de que forma é que o nosso país chegou realmente à situação dramática a que chegou. Não foram os gastos loucos, não foi a fuga fiscal, não foi a falta de produtividade da força laboral, nem sequer foi tanto a incompetência dos políticos. A crise da dívida pública e dos défices fiscais no mundo ocidental, resultou sobretudo da transferência de riqueza do sector da produção e do trabalho para o sector financeiro, sem que os estados tivessem actualizado a sua política fiscal para acompanhar essa evolução, com a agravante que em muitos casos pioram ainda mais a situação baixando a taxação do capital enquanto aumentavam desesperadamente os impostos sobre o trabalho, onde por e simplesmente o dinheiro já não está. Voltando às metáfora, é como se numa cidade abastecida por duas barragens, uma grande num rio e uma muito mais pequena num outro rio diferente, enquanto o caudal do primeiro rio é transferido para o outro por meio de transvases, a cidade insista em represar desesperadamente e cada vez mais o rio que está a perder caudal, sem se aperceber que a água está toda a fugir pelo outro rio onde a barragem já de si pequena foi ainda mais diminuida. Pode parecer estranho, mas parece-me, da minha perspectiva cientifica de quem se limita a olhar para a realidade, que é isto que está a acontecer às nossas economias, com as consequências que todos conhecemos e que todos sentimos na pele, e que a médio prazo terão como resultado inevitável a queda dos regimes democráticos em que vivemos.
segunda-feira, outubro 15, 2012
Aulas práticas
Tem estado a correr nas redes sociais a seguinte figura, que penso que tem os valores actuais correctos da taxa de IVA e do salário mínimo líquido em quatro países europeus, França, Holanda, Espanha e Portugal.
É desde logo evidente que os países com salários mais baixos são também os que sofrem de taxas de IVA mais elevadas, mas esta não é uma mera tendência qualitativa. Na verdade, se correlacionar-mos a taxa de IVA com o salário de cada país, obtemos uma correlação negativa quase perfeita de -0.95. Aliás, tendo em conta que os salários são de uma ordem de grandeza diferente das taxas de IVA, faz mais sentido correlacionar a taxa de IVA com o logaritmo do salário, nesse caso obtemos uma correlação negativa ainda mais perfeita de -0.98.
Para quem não está familiarizado com correlações, uma correlação indica até que ponto duas variáveis variam de forma semelhante, sendo que se variarem de forma idêntica têm uma correlação de 1, se variarem de forma totalmente independente têm uma correlação de 0 e se variarem de forma oposta têm uma correlação de -1.
Portanto, uma correlação de -0.98 indica que os salários e as taxas de IVA são quase perfeitamente inversamente proporcionais, quanto maior a taxa de IVA mais baixo o salário, e vice-versa. Isto não significa que o IVA cause os salários ou que os salários causem o IVA, mas sim que as políticas que causam baixos salários causam também taxas de IVA elevadas, e que as políticas que levam a salários elevados levam também a taxas de IVA mais baixas. Ou seja, quanto mais se baixarem os salários e quanto mais se elevar as taxas do IVA, mais longe estaremos nós do nível de desenvolvimento social e civilizacional dos países do centro e norte da Europa...
sábado, setembro 29, 2012
Postais das Selvagens
29 -
Sensação de ser presa
Uma das espécies de peixe que me ia faltando avistar na
Selvagem Grande era o peixe-porco. O Cristóbal que costuma ir nadar
até mais longe já os tinha visto, pelo que um dia pedi emprestadas
umas barbatanas e decidi ir nadar até à ponta mais distante da Baía
das Cagarras.
Fui nadando, usufruindo do efeito acelerador das
barbatanas. Acho que pensei que devia ser assim que o Michael Phelps
se sente quando nada. Fui vendo as espécies habituais e vendo o
fundo a ficar cada vez mais distante. Eventualmente cheguei à parte
mais profunda da baía onde o mar deve ter já mais de vinte metros
de profundidade. Graças às águas cristalinas das Selvagens o fundo
é perfeitamente visível, mesmo a estas profundidades, consegue-se ver
cada pedra e cada peixe como se houvesse apenas ar entre nós.
Segundo dizem, o capitão Costeau quando mergulhou aqui disse serem
as águas mais cristalinas que já conhecera e em dias de boa
visibilidade pode-se ver a quarenta metros de profundidade.
Nesta zona a baía parece um imenso aquário natural, e
vindos do azul profundo lá apareceram os peixes-porco. Primeiro três
ou quatro, depois uma dúzia, duas. Eventualmente contei oitenta
destes peixes a nadar em meu redor, agitando as longas barbatanas
enquanto iam navegando em uníssono. O peixe-porco tem uns dentes
bastante afiados, que geralmente são visíveis nas suas bocas
entreabertas, e são conhecidos por darem por vezes dentadas
dolorosas, pelo que convém ter algum cuidado na sua presença.
Assim, quando segui caminho e notei que o cardume me seguia, comecei
a olhar para eles com um olhar mais suspeito. Continuei a nadar em
direção à ponta da baía e o cardume seguia o mesmo rumo que eu,
nadando por baixo de mim. Quando me aproximava mais das rochas eles
afastavam-se um pouco, pareciam preferir águas mais abertas, mas
logo que me encontrava numa zona mais funda lá estavam eles por
baixo de mim.
Chegado à ponta, e inspecionados os peixes que se viam
por lá, comecei a nadar de volta a casa. Mal mudei de direção, os
peixes-porco fizeram o mesmo. Comecei a achar que de certa forma
faziam lembrar um cardume de piranhas gigantes em tons mais
cinzentos. Fui nadando e lá seguiam eles atrás de mim. Não me
senti muito ameaçado porque sabia que se me aproximasse das pedras
eles se afastariam, mas ainda assim comecei a sentir uma pouco como
se sente uma presa. Por que razão me seguiam eles? Achariam que eu
era um grande predador e esperavam por restos da minha caçada?
Estavam meramente curiosos? Ou teriam mais curiosidade sobre qual
seria o meu sabor? Não me apetecia muito testar a terceira hipótese,
até porque uma dentada de peixe-porco não será certamente letal,
mas é bastante dolorosa e alguns dos peixes por baixo de mim tinham
facilmente meio metro de comprimento. Continuei o meu caminho, nunca
muito longe das rochas e quando cheguei a águas menos profundas eles
desistiram de me seguir. Foi espetacular ver o cardume de peixes
enormes tão de perto, mas também senti algum alívio quando os vi
pelas costas.
sábado, setembro 22, 2012
Postais das Selvagens
28 –
Rotina e não só
| A Selvagem acompanhava-nos quase sempre nas nossas surtidas nocturnas ao planalto em busca de almas-negras. |
Apesar de ser o principal motivo da estadia na ilha, o
trabalho acaba por ser pouco apelativo quando penso no que relatar
aqui, pelo que vai sendo preterido em favor de outras aventuras.
Contudo, o trabalho era também muito interessante e até divertido
em algumas ocasiões.
Diariamente, visitávamos cada ninho de alma-negra para
pesar as crias, que a pouco e pouco se iam aproximando do peso dos
adultos. Depois da fase inicial, em que perdemos algumas, as
fatalidades tornaram-se muito mais raras e fomos acompanhando cada
cria, ao longo dos seus aumentos e perdas de peso que relatam os
padrões de vindas ao ninho dos seus progenitores. A meio da segunda
estadia tínhamos já crias com pesos equiparáveis aos dos adultos,
enquanto que outras continuavam ainda num limbo entre a sobrevivência
e a morte por inanição. As maiores começavam já a desenvolver as
primeiras penas, ficando com o corpo coberto de pequenos canudos de
onde despontavam diminutas penas.
Outra parte do trabalho implicava procurar ninhos novos,
uns para servir de controlo, outros para recolher amostras de sangue
de adultos e crias, de forma a determinar com base nos isótopos de
alguns elementos no seu sangue as diferenças ou semelhanças nas
suas dietas. Por incrível que pareça os adultos podem ingerir
algumas presas e trazer outras diferentes para o ninho para alimentar
as suas crias. Este trabalho de procura implicava procurar orifícios com a dimensão e o aspecto geral de ninhos e espreitar ou apalpar o
terreno em busca de crias de alma-negra. Existem algumas pistas úteis, nomeadamente pequenas casca de ovo que são espalhadas perto
do ninho depois da eclosão, assim como as manchas brancas dos
dejectos das aves, mas o trabalho acabava sempre por ser difícil e
raramente encontrávamos mais do que três ou quatro ninhos por dia.
Com o final da estadia a espreitar cada vez mais
próximo, começava a ficar inquieto com as responsabilidades finais.
Por um lado teríamos de capturar vinte adultos dos ninhos de estudo,
para lhes colocar os geolocators que irão registar as suas migrações
até à próxima época de reprodução. Esta tarefa tem como
dificuldade encontrar os adultos, que nesta fase do desenvolvimento
das crias só vêm ao ninho durante a noite, e não vêm todas as
noites. Veremos como corre quando chegar a altura, na próxima
semana. A outra tarefa passa por recolher as tais amostras de sangue
de vinte crias e vinte adultos nos ninhos novos, o que tem a mesma
dificuldade de conseguir encontrar adultos suficientes, mesmo de
noite, com a agravante de até ao momento termos apenas trinta ninhos
detectados. Dentro de dias, ou aliás de noites, começaremos esta
tarefa.
Pelo meio, houve ainda tempo de recapturar o tal
painho-de-Swinhoe, espécie de outros oceanos que parece visitar por
vezes esta região. Tratava-se da mesma ave que capturamos
anteriormente, tendo a sua anilha portuguesa novinha em folha para o
provar.
sexta-feira, setembro 21, 2012
Postais das Selvagens
27 –
Não é todos os dias
Muitos biólogos têm o seu quê de coleccionistas. Coleccionam animais, coleccionam plantas, coleccionam a porção das
miríades de espécies que povoam o nosso planeta que já tiveram a
sorte ou o engenho de avistar. Possivelmente os piores de todos são
os ornitólogos. Conheço muitos que mantém listas das aves
observadas em cada dia, em cada país, em cada estação do ano, em
cada casa ou cidade onde viveram. Eu não levo a coisa a esse
extremo, mas gosto de manter a minha lista das espécies que já
observei e gosto sempre de somar mais uma espécie à lista.
A minha vinda às Selvagens rapidamente rendeu várias
espécies novas, espécies oceânicas muito dificeis de avistar no
continente, como a alma-negra e o calcamar, ou espécies endémicas
das ilhas do Atlântico, como o corre-caminhos. Na Selvagem
Grande fora já avistada um par de vezes uma espécie de ave marinha
cuja área de distribuição habitual é o noroeste do Pacífico, nos
mares do Japão e da China, mas que visita por vezes o nosso
Atlântico. Trata-se do paínho-de-Swinhoe, ou Oceanodroma
monorhis, uma espécie que faz lembrar uma alma-negra em
miniatura, tendo também a plumagem predominantemente preta. Quis o
destino que numa das noites em que subimos ao planalto, enquanto
espreitava um ninho de alma-negra, o Cristobal me perguntasse: "
e esta que aqui está no chão, queres que eu apanhe?". Eu disse
que sim, que a segurasse um pouco para ver se tinha anilha. Não
tendo anilha, a ave ia ser libertada, mas quando eu me voltei para trás
e olho para o animal nas mãos do Cristóbal notei logo que havia ali algo de diferente. Fazia lembrar uma
alma-negra, sim, mas era muito mais pequena. "Espera" disse
eu, "isso não é uma alma-negra". Foi aí que o Cristóbal
também olhou para ela com mais cuidado e notou o seu erro.
Tratava-se claramente do esquivo e improvável paínho-de-Swinhoe.
Claro que não perdemos a oportunidade para documentar a
nossa descoberta. A ave foi profusamente fotografada de múltiplos ângulos e pormenores, foi medida, pesada e finalmente anilhada.
Posso dizer que sou um dos pouquíssimos portugueses, se não mesmo o
único, que alguma vez anilharam uma ave destas. Não é todos os
dias...
quinta-feira, setembro 20, 2012
Postais das Selvagens
26 –
Grutas
| A Gruta do Chão na maré vazia, com o mar a espreitar à entrada e a luz da clarabóia natural a marcar a parede oposta. |
A geologia áspera da Selvagem Grande, fruto de grandes
erupções submarinas do passado, gerou um sem número de formações
de rocha rude, imagens de uma terra ainda pouco conformada com a sua
solidez. Entre estes atractivos estão as várias grutas que penetram
profundamente o chão pétreo da ilha. Existem várias grutas
menores, mas as principais são a Gruta do Inferno e a Gruta do
Capitão Kidd, existindo também uma outra gruta junto ao mar, na
Baía das Galinhas, a Gruta do Chão, que merece uma visita
cuidadosa.
A primeira gruta que visitei foi a gruta do Inferno,
localizada numa fenda profundamente cravada na face do promontório
encimado pelo Pico do Inferno, de que falei quando descrevi a ilha. É
possível chegar lá por terra, descendo cuidadosamente a encosta
íngreme, mas foi por mar que a visitei. Saímos de bote, navegando a
ondulação sobre os tais azuis impossíveis destas águas. Depois de
contornadas as rochas que dividem a Baía das Cagarras da Baía das
Galinhas, avançamos a direito até ao outro extremo da enseada, onde
a terra rasga o mar de forma abrupta até às alturas do Inferno... o
pico, claro. O bote encostou às rochas negras e brutas, cobertas de
cracas e outros animais de índole cortante, e nós saltamos do bote e
amarinhamos pela rocha acima, até ao ponto cerca de quinze metros
acima do nível do mar onde tem início a gruta. À entrada tem um
tufo de erva verde, como que uma despedida das cores do mundo antes
de descer ao negrume do inferno. A gruta tem secção triangular,
com as arestas laterais muito maiores que a da base, encontrando-se
lá em cima, muitos metros acima das nossas cabeças. Lá dentro,
patrulham com os olhos algumas cagarras que por ali fazem ninho, sob
os blocos tremendos que brotam das paredes como cogumelos. Pedras
vulcânicas aqui e ali entremeadas com filões calcários e manchas
brancas que talvez fossem de salitre. A gruta perfura a rocha numa
extensão de mais de cem metros, até ao seu término, sempre triangular, onde mal cabe uma pessoa. Nesse ponto, mesmo olhando
para trás, parece que nem um único fotão chega aos nossos olhos.
Não foram as luzes dos frontais e pareceria que a luz era algo que
nunca existira. Algumas rochas têm pequenos cristais brilhantes, que
refulgem sob as nossas luzes, e em alguns pontos infiltra-se água, e
o ponto alto da visita à gruta acaba mesmo por ser o triângulo
luminoso que nos abraça quando volvemos à entrada, agora tornada
saída deste reino que de infernal afinal tinha apenas o nome.
A visita seguinte às grutas voltou a ser à gruta do
Inferno. Desta feita fomos por terra e percebi finalmente porque se
chama Gruta do Inferno. A descida é um verdadeiro inferno de rochas
soltas, declives abruptos e quedas semi-controladas até à base do
precipício. Saídos do inferno, seguimos ao longo da costa, saltando
sobre grandes lages de basalto, até à Gruta do Chão. Esta gruta é
relativamente pequena, e o mar entra lá dentro durante a maré-alta,
sendo o chão de calhau rolado de basalto escuro. A gruta tem duas
entradas, ambas com o mar azul em fundo, e por cima das nossas
cabeças abre-se uma clarabóia natural que permite a entrada de
ainda mais luz, fazendo um efeito bastante bonito.
No dia seguinte fomos finalmente à mítica Gruta do
Capitão Kidd. Não se sabe ao certo de onde veio nome da gruta, mas
a verdade é que já vários lá foram escavar em busca do tesouro do
famoso pirata. Chega-se à gruta descendo a vertente da Baía das
Pardelas, do lado nordeste da ilha, chegando-se a um grande lageado
basáltico junto ao mar, cheio de pequenas poças com pequenos
peixes, lapas e ouriços-do-mar. A gruta começa numa abertura ampla
e é formada por uma câmara larga e relativamente alta, tendo um
buraco no meio por onde entra o mar. Dentro da gruta ouve-se o bater
das ondas no fundo do buraco e avistam-se os vestígios das
escavações antigas dos caçadores de tesouros. A vista mais bonita
é a da entrada vista do interior, sendo a luz como que filtrada em
tons esbranquiçados, dando à gruta um tom vagamente onírico.
Completei assim o meu périplo pelas grutas da ilha.
Agora sim sou um veterano da ilha.
quarta-feira, setembro 19, 2012
Postais das Selvagens
25 –
Azuis impossíveis
| Uma tentativa de fotografar os azuis impossíveis do mar em redor da Selvagem Grande, mas que não faz de forma alguma justiça à realidade. |
A segunda estadia começou sobre ventos fortes e céus
nublados. Foram os mesmos ventos que tanto trabalho deram aos
bombeiros que combatiam os terríveis incêndios que assolaram a
Madeira nessa altura. O constante uivar do vento é cansativo, a
alguns pode até levar às margens ténues entre a sanidade e a
loucura. Para mim o pior é mesmo o esforço extra em tudo o que
fazemos. Os papéis voam, as páginas dos cadernos esvoaçam, o
material no campo salta e foge e a pesagem das crias, com uma pesola,
torna-se um verdadeiro pesadelo. Eventualmente tivemos de começar a
levar connosco um balde fundo onde podíamos fazer as pesagens sem a perturbação do vento.
Ao fim de 5 ou 6 dias veio finalmente tempo melhor. O
dia nasceu cinzento, mas o vento tinha abrandado e pela tarde a ilha
foi emersa numa tarde verdadeiramente gloriosa. Para aproveitar o bom
tempo saímos de bote, para visitar algumas zonas da ilha só
acessíveis por mar. Contornamos a ilha por norte, chegando à Baía
da Atalaia, dominada pelo farol da ilha. Em certo ponto existe um
local onde o mar penetra a falésia num rasgo fundo, com uns quatro
metros de largura e uns cinquenta ou sessenta de comprimento, onde é
possível entra de bote. Sob o sol que entrava entre as rochas, a
água é infinitamente límpida e quando mergulhamos o azul, claro e
fundo em simultâneo, era uma daquelas cores impossíveis que parecem
só existir na paleta de cores dos programas de edição de imagem.
Continuamos a seguir a costa da Baía da Atalaia até um
recanto onde o Lourenço tinha de ir a terra para eliminar alguns
exemplares de Nicotiana, plantas invasoras que o Parque
Natural tem vindo a tentar eliminar da ilha. Existem na ilha duas
espécies, ambas não nativas, sendo uma delas a planta do tabaco.
Voltamos a mergulhar, agora numas águas em tudo semelhantes às da
Baía das Cagarras, junto à casa, onde nado diariamente. A diferença
era os peixes, ainda mais abundantes e em tamanhos impressionantes.
Vimos garoupas com mais de meio metro, um encharéu enorme, que teria
talvez perto de um metro de comprimento, e vi finalmente duas das
espécies que me iam escapando nos meus mergulhos: o mero e o
sargo-veado. O mero era um exemplar relativamente pequeno, tendo em
conta que esta espécie chega a atingir os dois metros,
tratava-se de um exemplar com não mais de cinquenta centímetros. Os
sargos-veados são semelhantes ao sargo comum, mas com largas bandas
pretas ao longo do corpo, que lhe dão um aspecto de zebra marinha.
Antes de voltar à base, afasta-mo-nos da ilha para
espreitar o Baixio da Joana, uma formação rochosa submarina
localizadas a cerca de um quilómetro de terra, que em algumas zonas
quase chega à superfície do mar. Voltamos a mergulhar. Aqui estávamos claramente já nos domínios de Neptuno. À nossa volta o
oceano era de um tom de azul tremendo, uma cor forte, profunda,
refrescante, quase assustadora, mais um azul impossível por entre o
qual nadavam literalmente milhares de peixes. As espécies eram as
mesmas que vemos em terra, as preguiçosas, as bogas, as dobradas,
mas aqui formavam enormes cardumes que teriam de certo vários
milhares de indivíduos. Nadei por ali alguns minutos, quase com
vontade de chorar perante tanta beleza. Não chorei, mas absorvi
profundamente aquelas imagens para não mais esquecer.
terça-feira, setembro 18, 2012
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