terça-feira, setembro 20, 2005

Sonhos de criança


Desde os 5 anos de idade que sonho fazer isto... claro que agora parece muito mais utópico do que à 20 anos atrás! Isto vai soar um bocado a geek, mas o meu emprego de sonho sempre foi ser o Science Oficer da Enterprise, do Star Trek. Se alguém da NASA ler isto, fiquem a saber que me ofereço desde já para ser o biólogo de bordo na primeira missão a Marte!

Outono


O Outono começa amanhã!
O equinócio de Outono é amanhã, dia 21 de Setembro, às 23h23m. Isto significa que amanhã o Sol passa pelo equador celeste e o dia e a noite são igualmente longos. Mas também quer dizer que vem aí a época em que as folhas amarelas e castanhas dão cor às nossas árvores.

Edukação Social


Ontem fui ver o filme “Os Edukadores”, um filme alemão que recomento bastante. Adorei o filme, tem um espírito muito sixties, não no sentido pindérico do “flower power” e afins, mas mais num contexto de Maio de 68, a revolução como expressão máxima da alienação juvenil.
O filme conta a história de três jovens alemães que, nos nossos dias, que decidem começar uma revolução contra o sistema capitalista que perverteu as nossas democracias e condena milhões a uma vida miserável para que alguns privilegiados vivam na abundância e no luxo. Não vou contar aqui a história do filme, mas vão ver porque vale a pena.
É um daqueles filmes que nos deixa a pensar. A pensar a sério. A pensar na nossa sociedade, a pensar na nossa vida, a pensar naquilo que fazemos e não devíamos fazer, naquilo que não fazemos e devíamos fazer. Convém deixar já aqui uma ressalva: o pessoal de direita escusa de ir ver o filme porque não vai sequer perceber o sentido do filme.
Por exemplo, com que frequência é que se lembram que num sistema capitalista global, é necessária uma África miserável e a passar fome, uma América latina em constante tumulto e uma Ásia Central violentada dos seus recursos para garantir a razoável qualidade média de vida dos Europeus e Norte-Americanos. Por cada televisão que temos em casa são mais umas bocas que ficam por alimentar num qualquer recanto do terceiro mundo. Isto pode parecer absurdo mas é verdade. O sistema assenta no princípio de que os recursos não chegam para todos, pelo que para alguns terem muito é necessário que outros não tenham nada. Claro que isso é cada vez mais agravado pelo crescimento da população. Quando penso nisto, enoja-me a ideia de que por vezes, por comodismo, vou de carro para o trabalho quando podia ir de transportes. Claro que não sou rico, muito longe disso. Mas sou infinitamente abastado, quando comparado com os desgraçados de tantos países (alguns já aqui em Portugal) que não têm mesmo nada. E o que é que eu faço em relação a este estado de coisas? Nada, absolutamente nada. O mínimo que posso fazer é conhecer esta realidade e divulga-la.
E tudo isto para que? Para vivermos com uma carrada de bens materiais de que não precisávamos à partida, mas de que a sociedade nos ensinou a depender. Olhem o telemóvel. Há 10 anos ninguém tinha telemóvel, porque é que agora não sobrevivemos sem um (ou dois, ou três)? E já pararam para pensar se a televisão acrescenta alguma coisa à nossa felicidade, ou se serve apenas para preencher o tempo morto, de maneira a não termos de pensar nos nossos problemas. Alguns dos maiores génios da humanidade viveram num mundo sem Internet, sem televisão e sem telecomunicações instântaneas, mas mesmo assim isso não os impediu de se tornarem os grandes vultos que foram. Agora, com tudo isto a nosso favor, não passamos de zombies anestesiados pelo portento da nossa tecnologia. Alguém viu a MTV nos últimos tempos? Se aquela programação não é desenhada para débeis mentais parece muito!
Não estou a dizer que devemos abandonar a tecnologia, longe de mim tal ideia, aliás seria hipócrita da minha parte, visto que hoje não estaria vivo se não tivesse sido operado (mais um exemplo de um avanço da tecnologia) com apenas um mês de vida. Só estou a dizer que pensar na vida de vez em quando, em vez de ficar especado à frente da TV a ver o ultimo vómito da TVI, pode ser uma boa ideia. Se olharem para o passado, todos os problemas que surgiram no nosso caminho foram ultrapassados pela força das ideias e da crença num mundo melhor. Não será agora que estamos apetrechados de todo este manancial de conhecimento e técnica que vamos ficar parados a ver o mundo ruir sobre as bases de um sistema económico corrupto e desumano, varado pelo caos da sobre-população e da catástrofe ambiental. Pessoalmente não acredito que alguma fez resolvamos satisfazmente estes problemas. Os ricos vão continuar a querer ser mais ricos e o mundo irá inevitavelmente cair no caos, os recursos vão começar a falhar e a guerra, as doenças e a degradação ambiental vão, potencialmente, destruir toda a humanidade no processo. Mas não faz parte da minha maneira de ser parar de acreditar, por um momento que seja, que temos de lutar até ao fim. Porque tenho a certeza que, no final, este é um jogo que não podemos ganhar, mas é precisa cair a lutar, até ao último fôlego, de outra maneira a vida não faria sentido.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Quintas-feiras culturais VIII

Ontem tive um dia super ocupado, por isso a quinta-feira cultural teve de se atrasar para sexta. Hoje fica aqui algo um pouco diferente. Não é um poema português, nem se quer é em português, mas é uma das minhas músicas favoritas dos U2, do senhor Bono Vox, que além de ser um dos melhores músicos do mundo ainda arranja tempo para estar nomeado para o prémio Nobel da Paz. A mal ou a bem, aqui fica "Bad".

Bad

If you twist and turn away
If you tear yourself in two again
If I could, yes I would
If I could, I would
Let it go
Surrender
Dislocate

If I could throw this
Lifeless lifeline to the wind
Leave this heart of clay
See you walk, walk away
Into the night
And through the rain
Into the half-light
And through the flame

If I could through myself
Set your spirit free
I'd lead your heart away
See you break, break away
Into the light
And to the day

To let it go
And so to fade away
To let it go
And so fade away

I'm wide awake
I'm wide awake
Wide awake
I'm not sleeping
Oh, no, no, no

If you should ask then maybe they'd
Tell you what I would say
True colors fly in blue and black
Bruised silken sky and burning flag
Colors crash, collide in blood shot eyes

If I could, you know I would
If I could, I would
Let it go...

This desperation
Dislocation
Separation
Condemnation
Revelation
In temptation
Isolation
Desolation
Let it go

And so fade away
To let it go
And so fade away
To let it go
And so to fade away

I'm wide awake
I'm wide awake
Wide awake
I'm not sleepingOh, no, no, no

The Edge, U2

quarta-feira, setembro 14, 2005

Pensar alto

Acho que decia mudar o nome do blog... Se a tal insatisfação é inevitavel, quer dizer que nada a puderá alterar. Nesse caso para que perder tempo a falar nisso? Talvez o "Em Busca da Satisfação Perdida", com o Indiana Jones no principal papel, ou um "Insatisfação Implacável II" em que os posts contam a história de um robot que veio do futuro para espalhar a insatisfação pelo mundo.
Por outro lado, quem está satisfeito, por definição não quer mudar. Portanto só a insatisfação pode levar o mundo para a frente... Só uma insatisfação infinita pode garantir um futuro melhor! Exacto era isso que eu queria dizer com o título. Agora me lembro...
É melhor deixar como está e ficar-me por aqui com estas baboseiras.

terça-feira, setembro 13, 2005

Força Braga


Como até sou um gajo com bom desportivismo, quero deixar aqui os parabéns à lagartagem. Lá nos ganharam. Claro que para isso foram necessarios dois erros pateticos da defesa do Benfica e uma expulsão absurda, mas o que conta é o resultado: 2-1. Bom resultado de derby.
Mas indo ao que interessa, já que o Benfica parece ir sendo uma hipotese remota de candidato ao título (ainda à muito campeonato, mas a avaliar pela amostra!), quero deixar aqui o meu completo e total apoio ao SC Braga. Não é só por jogarem de vermelho e branco. Acho que são uma equipa que joga extremamente bem, não têm manias nem presunções de grandeza e já vai sendo tempo de termos um novo campeão, porque os outros 3 já cheiram mal. (Eu sei que estou a esquecer o Boavista, aquela máquina sanguinária de destruição massiva de pernas adversárias, e o Belenses, que segundo dizem ainda tem três adeptos vivos que se lembram de ouvir os avos falarem do tempo em que eram campeões).

Força Braga, estou convosco!

Às Páginas Tantas


Ontem já é tarde, deixei para amanhã
Amanhã ainda é tarde, não digas a ninguém,
Dizes verdades ditas ao ouvido de alguém,
A tarde já se fez noite, e é já quase manhã

Um dia acordei na manhã do mundo. Os mares estavam ainda meio cheios, as montanhas ainda meio erguidas. Até o céu estava ainda a meio caminho do firmamento. Todo o mundo estava incompleto, inacabado, até eu estava ali meio, faltava-me ainda metade, um meio pra lá chegar.
Corri como louco, por florestas de meias árvores, corri por prados onde meias vacas pastavam as ervas meias. No céu duas meias aves gritavam, chamando a minha atenção para uma raposa. Uma raposa inteira. Ela chegou-se a mim e disse apenas:

Ontem já é tarde, não digas a ninguém
Dizes verdades ditas, e é já quase manhã

segunda-feira, setembro 12, 2005

Chuva na praia


Ontem fui à praia com o meu cão. Estava mau tempo e a praia estava vazia, já tinha saudades de ter uma praia só para mim!
Gosto muito de ir à praia no Verão, conversar à beira-mar, jogar vólei, tomar banho e sentir depois o Sol quente secar a água salgada sobre a pele. Mas a praia, com mau tempo, ganha um encanto muito especial.
O areal vazio; a areia limpa, ainda à espera das nossas pegadas; o mar cinzento, que parece gritar a palavra Inverno, esmagado pelas nuvens cinzentas a ameaçar chuva; o silêncio sonoro, cantado pelo vento, pelas ondas e pelo roçagar da areia sob os nossos pés. Temos como única companhia a chuva miudinha, um misto de chuviscos gerados nas nuvens com a maresia das ondas, e três ou quatro velhotes, pescadores irredutíveis que nem as tempestades de Inverno conseguem afugentar.
Eu sei, ainda estamos no Verão, mas gostei de ver a praia assim.

Campanha eleitoral

Eu sei que estou a antecipar-me um pouco, oficialmente a campanha eleitoral só começa daqui a mais uma ou duas semanas, mas acho que ninguém vai levar a mal, até porque à meses que o país está já em "pré-campanha" para as autarquicas.
Ora as autarquias são uma das maiores vergonhas nacionais. São um poço sem fundo de aldrabices e corrupção, onde a democracia portuguesa é arrastada no mais mal-cheiroso lodo do pântano político nacional, baseado nos mais baixos exemplos de partidarismo e populismo. Ele são as obras em vésperas de eleições, as ofertas de frigríficos e microndas, os sacos azuis e a corrupção galopante, e depois ainda há o Avelino Ferreira Torres! Este cenário é mais ou menos uniforme em todo o espectro político, sendo muito difíceis de encontrar excepções honrosas.
Por isso, eu voto no voto em branco. Vamos todos mandar uma mensgem bem clara a essa pandilha imunda da política. Relembrar aos "pseudo-importantes" quem é que realmente manda por cá e pôr a sociedade a repensar seriamente que raio de democracia é esta que por cá temos. Não sei se notaram que os "brancos" foram a 7ª força política nas últimas legislativas, logo a seguir aos 5 partidos do parlamento e ao PCTP-MRPP do Garcia Pereira. Ora como eu sou contra a abstenção, porque acho mal abdicarmos de um direito conquistado a custo e porque é também um dever de todo o cidadão de um estado democrático, e porque não me agrada a ideia de votar em chulos, corruptos e filhos da puta de toda a espécie, convido todos a tornar realidade a história do "Ensaio Sobre a Lucidez" do José Saramago. Votem em branco

sábado, setembro 10, 2005

Pelágio ao Ricardo Araújo Pereira

Apesar do fedor dos gatos fedorentos já ir perdendo alguma piada com o tempo, continuo a gostar muito da Boca do Inferno, a crónica semanal do Ricardo Araújo Pereira na Visão. Deixo aqui um pedaço da crónica desta semana, simplesmente genial.
Ricardo, desculpa lá o pelágio, continua a escrever assim que estás em grande homem!

" Dizem os cientistas adeptos da teoria do caos que o bater de asas de uma borboleta na Austrália pode desencadear um furacão nos Estados Unidos. A sorte das borboletas australianas é que há menos hipóteses de Bush saber o que é a teoria do caos do que o Arrifanense ganhar a Liga dos Campeões. (E quem diz o Arrifanense, diz o Sporting). De outro modo, o Presidente dos EUA não havia de descansar enquanto cada borboleta australiana não tivesse levado com um Tomahawk nas antenas"

Mike Tyson


Eu não sou propriamente um leitor assiduo da literatura desportiva (vulgo, "A Bola"), mas no outro dia vi uma notícia tão bombástica que mereçe vir aqui para o blog. Eis o título inigmático desse mítico jornal:

"Mike Tyson é do Benfica e quer conhecer Eusébio"



Meus caros, se isto não prova que o Benfica é o maior clube do mundo, não sei o que provará. Só vos digo uma coisa. Aliás, só digo uma coisa ao sr. Paulo Costa que vai arbitrar hoje o Sporting-Benfica: "Experimenta roubar o Benfica e vais ver o que te vai acontecer às orelhas"

Pareçe que estou a ver o Mike Tyson, ao lado do quarto árbitro, a arreganhar os dentes e a ameaçar o arbitro de lhe arrancar uma orelha à dentada se ele não marcar o penalty...

sexta-feira, setembro 09, 2005

A vida num só dia


Há uma música dos Rádio Macau chamada A vida num só dia, um conceito engraçado, viver toda uma vida compactada no espaço de 24 horas. Eu não sei bem o que é que eles queriam dizer com este título, não sei a letra e não me apeteçe ir à procura, mas o que pareçe muitas vezes é que a vida é realmente composta de um só dia, que se repete, ad eternum, sempre, sempre, sempre a mesma coisa. Hoje foi mesmo um desses dias repetidos. Acordar mais cedo do que queriamos, tomar banho à pressa porque já estamos atrasados e arrastarmo-nos o dia todo pelo local de trabalho, a fazer aquilo que já tinhamos estado a fazer ontem e vamos continuar a fazer amanhã. A adiar aquilo que deviamos fazer e a ocupar o tempo com banalidade. A culpar os outros pelos nossos erros e a fugir às responsabilidades. A fugir cobardemente dos desafios e a perder tempo com sonhos e desvarios. Pouca acção e muitas dúvidas...

Não liguem a este post, depois de 10 meses de céu sempre azul, Lisboa está finalmente debaixo de nuvens cinzentas. Ainda bem, para a acabar com a seca, mas é muito mau para o moral. De agora até Dezembro é sempre a descer!

E a loucura aqui tão perto

quinta-feira, setembro 08, 2005

Quintas-feiras Culturais VII

Um poema deprimente já a pensar no Inverno que se adivinha. Pelo Mário de Sá Carneiro, o mais deprimente poeta que já nasceu neste país em eterna depressão.

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho- que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá Carneiro

terça-feira, setembro 06, 2005

Adeus Edu

Todos os meus ex-colegas da FCUL devem lembrar-se do Edu, aquele arrumador de carros muito porreiro que costumava organizar aquele estacionamento caótico entre a Faculdade de Ciências e a Torre do Tombo.
Pois tenho de vos dar a triste notícia que o Edu faleceu recentemente, fui esfaqueado por assaltantes na noite do concerto dos U2, enquanto organizava o estacionamento do pessoal que vinha ver o concerto.

Para quem não o conhecia pode parecer estranho estar aqui a dizer bem de um arrumador de carros, mas este tipo era mesmo impecável. Organizava todos os dias o estacionamento num lamaçal caótico e nem sequer pedia nada em troca. Não era bebedo nem drogado, simplesmente não tinha outro emprego e não queria ter de roubar para viver. Contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que lhe dei alguma coisa, mas mesmo assim todos os dias me comprimentva com um sorriso. E ainda por cima era do Benfica!

sábado, setembro 03, 2005

O mar


Estava à beira-mar, com o espraiar das ondas a varrer suavemente os meus pés, quando me interrogei, qual será esse fascinío provocado em nós pelo mar. A verdade é que o mero acto de olhar para o oceano faz-me sentir bem, é como que um bálsamo para os stresses da vida, ou talvez para a vida dos stresses.
Poderá ser o seu infindável movimento, as ondas incessantes que não param de mudar o mesmo cenário azul, dando-lhe mil formas diferentes? O lento murmurar das marés, que nos fascinam pela lenta certeza com que regulavam a vida à beira-mar? Talvez sejam as velas que avistamos no horizonte, promessas de viagens e de locais exóticos?
Provavelmente é tudo isso, como pode ser nada também. Acho que é a sua mera grandiosidade, a enormidade de uma massa de água revolta que nos ocupa todo o horizonte, mesmo sabendo nós que ele se prolonga muito mais além. É a ideia da sua profundidade, a sensação clara de que o seu leito poderia engolir mil orgulhosas civilizações. E é também o respeito, o respeito dos jovens pelos idosos, o respeito, talvez, da presa pelo seu predador, é o saber que ele ainda ali estará muito depois da nossa morte, sempre igual, sempre diferente. É a nossa própria pequenez gritado em estado líquido. Porque o mar é vida, sempre em movimento.

sexta-feira, setembro 02, 2005

We told' ya

"Look who comed crawling back" disse eu para o Tio Sam quando ele entrou pela minha porta, todo desgrenhado, com a roupa rasgada e molhada e a morrer de fome. "Então pá que é isso?" perguntei-lhe eu, sempre com medo que ele me bombardeasse com misseis Tomahawk. "Foi a merda do furacão, comemos da dose grande em Nova Orleães", respondeu ele tossindo e arfando. "Ah pois é, os meninos são os maiores, não precisam de ninguém, o protocolo de Kioto é uma treta, não à aquecimento global e o camandro" começei eu a desbobinar. "Mas o que é isso tem a ver com a merda do furacão?" perguntou ele com o queixo a tremer de frio. "Se vocês ouvissem alguma coisa do que nós, estúpidos e ignorantes não americanos, dizemos tinham reparado que todos os modelos climáticos previam a ocorrência de cada vez mais tempestades catastróficas, à medida que a temperatura da atmosfera vai subindo". Intrigado com o que eu disse, o Tio Sam tentou a cartilha do costume. "Aquecimento global? Isso é para meninas. O furacão foi criado por uma célula da Al-Qaeda baseado na Rússia, daí chamar-se Katrina. Logo que reponhamos a ordem em casa vamos bombardear esses cabrões desses Russos para os ensinar a não albergar terroristas. Já deviamos ter despachado esses cabrões da face da terra à muito tempo!" Não consegui evitar um breve sorriso de desdém, "Vocês são mesmo estúpidos não são?" perguntei, um pouco a medo. "Tu queres levar com uma bomba atómica nos dentes não queres?" perguntou o tiozinho a espumar de raiva. "De qualquer forma, se vocês não tivessem o vosso exercito todo ocupado em guerras absurdas um pouco por todo o mundo, podiam usa-lo para salvar as pobres pessoas que vivem em Nova orleães, não era?" ariisquei eu, ciente de como estava perto de ser violado por via rectal pelo canhão de um tanque americano. Mas o tipo tinha resposta para tudo "O exercito está lá para parar esses sacanas nesses terroristas e para derrubar os lideres do eixo do terror, que lhes dão abrigo. Se não fosse isso tinhamos um furacão destes em todas as cidades americanas!" Não resistir a atirar-lhe á cara Pois, vai dizer isso aos desgraçados que estão a morrer no meio do caos em Nova Orleães." Aí pensei mesmo que ía morrer, o gajo passou-se "É agora, vou chamar agora mesmo um bombardeiro B2 para te rebentar esses miolos." Tive de o tentar acalmar "Calma, calma, mas não vês que ninguém consegue controlar o clima... quer dizer, ninguém excepto vocês com as vossas políticas ambientais imbecis. Mas aí nós não somos muito melhores, tenho que admitir. De qualquer forma, os russos até foram os primeiros a oferecer-vos ajuda, e também o México, a Venezuela, a União Europeia, até Cuba". Tentava eu pôr água na fervura, mas a referência a Cuba fe-lo passar-se completamente. "O quê, Cuba, nós não queremos esses filhos da puta comunas para nada. Devem ter sido eles a lançar o furacão só para depois virem oferecer ajuda para gozar conosco. Amanhã mando arrasar Havana. Vão aprender. E esse fala barato da Venezuela, o Hugo Chávez não espera pela demora. E quanto a vocês europeus, vocês já me começam a meter nojo, sempre tão bonzinhos, a justiça para aqui, o respeito pelo ambiente para ali, um bando de panascas é o que é. Temos que invadir essa merda toda para vos pôr na linha. Panilas! Ele dizia isto no meio de uma tempestade de perdigotos, tal era a maneira como espumava de raiva. No meio da confusão entraram finalmente os enfermeiros do Júlio de Matos para o levarem para o hospital psiquiátrico. Eu ainda lhes disse nós avisamos que ele estava a enlouquecer, we told' ya.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Quintas-feiras Culturais VI

Cá está, o regresso das quintas-feiras culturais.
Este poema é um dos meus favoritos dos tempos da escola secundária, um dos poucos que me obrigaram a ler nessa altura e eu de facto gostei! Porque é um crime obrigarem as pessoas a ler literatura, sei de muita gente que ainda hoje odeia ler por ter sido obrigado a ler certas obras na escola.
Na minha opinião, não é assim que se fomenta a leitura em Portugal. Porque não propor aos alunos que vão procurar uma obra de que gostem e depois estuda-la nas aulas (podiam limitar a busca a certos autores, mas dando liberdade de escolha aos alunos). De outra maneira vão continuar a produzir adultos que odeiam literatura!
Cá fica o velho Camões:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luíz Vaz de Camões

Já lá vão uns séculos, mas este continua bastante actual!

quarta-feira, agosto 31, 2005

Fridtjof Nansen


Hoje li um artigo sobre a vida de Fridtjof Nansen, prémio Nobel da Paz em 1922. Para além de ter um nome impronunciável, este senhor viveu uma vida que quase me devolveu a esperança na humanidade.
Sinceramente, deve ter sido uma das pessoas mais interessantes que já viveram, mas como não é americano, inglês, francês ou alemão não é minimamente conhecido.

Foi um norueguês, nascido em 1861, que começou por ser biólogo. Zoólogo para ser mais preciso. Participou numa série de expedições às regiões polares do Norte, trabalhou em oceanografia das regiões polares e publicou imensos trabalhos sobre as suas observações nessas regiões. Depois de 20 anos de uma carreira científica muito bem sucedida, decidiou abandonar a vida académica para defender a independência da Noruega, que pertencia na altura à Suécia. Bem sucedido, abandonou esses afazeres políticos e voltou à sua oceanografia, até 1914.
Em 1914 começou a primeira Guerra Mundial e o senhor Nansen decidiu que já chegava de oceanografia, estava na hora de se dedicar à diplomacia. Participou numa série de negociações durante a guerra, incluindo um tratado que permitiu que barcos com alimentos podessem evitar os bloqueios navais e chegar à Noruega.
Depois da guerra foi um grande apoiante da criação da Sociedade das Nações e foi muito activo na defesa dos direitos das pequenas nações no convénio da Sociedade das Nações. Depois de todo esse trabalho, deram-lhe o cargo que ninguém queria: nomearam-o para resolver o problema dos prisioneiros de guerra. Em um ano e meio multiplicou-se em actividades diplomáticas e conseguiu que 450000 soldados fossem devolvidos às suas nações de origem.
Foi o primeiro Alto-comissário para os Refugiados e nesse cargo ajudou a repatriar centenas de milhares de russos, milhares de assírios, mais de um milhão de gregos e meio milhão de turcos, todos eles refugiados mais ou menos abandonados em território enimigo.
Como se isto não bastasse, a pedido da Cruz Vermelha, foi ele que organizou o programa de ajuda humanitária que entre 1920 e 1921 evitou que cerca de 20 milhões de russos morressem de fome devido aos primeiros planos quinquenais do Lenine, que falharam miseravelmente devido a dois Invernos particularmente rigorosos.
Para acabar, foi ele que consegiu inventar a Arménia, de maneira a salvar o povo arménio de uma extinção que parecia inevitável porque eram escurraçados por tudo e por todos.

Sozinho, este homem deve ter salvo mais pessoas do que as que o Hitler matou! Mas nunca li nada sobre ele nos nossos livros de história...

Quem quiser saber mais algumas coisa sobre ele, pode ler neste artigo.

terça-feira, agosto 30, 2005

Revolução

Tal como os políticos fazem a sua rentreé em grande também este blog a fará. Que tal um apelo à Revolução?

Não se preocupem não estou a falar de bombas, tiros e outras formas de barbarie à americana, queria antes referir uma citação que li algures, durante as férias e não esqueci: "As grandes revoluções são o resultado da acção de princípios, mais do que das baionetas, sendo primeiro realizadas na esfera moral e só de seguida na esfera material" dizia Giuseppe Mazzini, um nacionalista italiano do séc. XIX. A frase ficou-me pela verdade do que diz. Se virem bem, as grandes mudanças históricas dão-se geralmente de uma forma quase natural, como se tivessem de acontecer e no fundo é exactamente isso que acontece. As pessoas vivem sobre um determinado sistema, que não lhes agrada, mas a a mudança para um novo sistema geralmente só se dá depois de o "sub-consciente da sociedade" compreender a necessidade de dar o salto. Só quando todas as pessoas perceberam já, no seu intimo, qual o caminho a tomar, é que se pode dar o movimento popular que leva a essa evolução. No fundo foi o que aconteceu no nosso 25 de Abril, no dia em que a revolução chegou, todas as pessoas tinham já compreendido, mesmo sem terem pensado muito nisso, que a história já as tinha ultrapassado e que a mudança era inevitável (para lá de, como é óbvio, ser desejável). Quando assim é, a transição dá-se com toda a naturalidade pois a população imediatamente aceita a nova realidade como aquilo que deve ser.

Ora onde é que eu quero chegar com isto? Muito simples, nunca o mundo precisou tanto de uma revolução como agora. O nosso sistema actual é uma preverssão de todos os ideiais que o ajudaram a criar, não temos democracia, nem temos liberdade, nem temos socialismo (aqui no sentido de sociedade perfeita, não no sentido comunista do termo), nem temos nada. Temos uma palhaçada sem igual em que já não existe direito internacional, as economias estão à beira da ruptura, as desigualdades e injustiças são cada vez maiores e a própria sociedade parece à beira de implodir num caldeirão de desconfianças e ódios absurdos que pareciam já ter sido ultrapassados. Por isso, temos todos de falar sobre isto. De discutir, de debater, de partilhar ideias, de filosofar um pouco. E a pouco e pouco pode ser que caminhemos para o tal estado de certeza subconsciente que nos possa levar a uma mudança para algo melhor.

Será preciso mais uma vez confirmar o velho axioma que diz que "só quem já perdeu tudo não teme deitar tudo a percer"? Espero que não tenhamos de chegar a esse ponto.

De Volta

Pois é, pois é.
Não sei porque é que começei assim o meu primeiro post em mais de um mês... isto parece o inicio dos famosos desbloqueadores de conversa do Nuno Markl. Bem este post já me cheira a non-sence do mais puro.

Long story short: Estava de férias, mas a única razão porque não tenho blogado (este verbo já existe?) foi porque não me apeteceu... No fundo o motivo remonta ao título do blog "A Inevitavel Insatisfação do Ser", mais precisamente do meu ser. Ora deitado de papo para o ar na praia, a apreciar as ondas, o sol (e os bikinis) torna-se dificil sentir a tal insatisfação que muitas vezes motiva a escrita. Estava de férias e satisfeito, por isso não estava com espírito para escrever.

Foram umas férias agradáveis, um semana sem fazer nenhum nas Caldas da Rainha em casa dos papás, a ser apaparicado à grande como já não era á algum tempo, depois uma semana de campismo, praia e copos em VN de Mil Fontes com dois de amigos de longa data, que incluiu uma visita a nado à mítica ilha do Pessegueiro e muitos, muitos jogos de snooker e conversas sobre futebol, carros e gajas, as verdadeiras férias da carochice. E finalmente uma semana a passear pelo norte de Espanha, estas sim umas férias no sentido que eu gosto de dar à palavra, a conhecer sítios novos que eram, diga-se de passagem, francamente bonitos. Quando tiver tempo ei de por aqui algumas fotos da costa da Galiza ou das montanhas das Asturias, fiquei maravilhado.

Agora de volta ao trabalho, até porque recebi a agradável notícia de que a FCT aceitou a minha candidatura à bolsa de doutoramento e como tal a partir de Janeiro de 2006 e durante 4 anos vou ter uma fonte de rendimento constante e relativamente segura pela primeira vez na vida (o meu record anterior tinham sido 8 meses de seguida!).