segunda-feira, julho 31, 2006

Um homem muito certinho

O senhor Justino Certo era um homem muito certinho.
O Justino era sempre bem educado, nunco faltou ao respeito de ninguém. Respeitou sempre os patrões e tratou sempre com justiça os seus subalternos. Nunca excedeu os limites de velocidade nem estacionou o carro sem pagar no parquímetro. Nunca chamou nomes a ninguém, nem mesmo aos árbitros que roubavm o seu clube. Pagou sempre todos os impostos, tinha sempre as contas em dia. Na praia, nunca nadou com bandeira amarela e nunca tomou banho com bandeira vermelha, nunca chegou sequer perto da água quando era hasteada a bandeira de xadrez. Para os amigos foi sempre correcto, nunca deixou de por o bem-estar deles à frente do seu, nunca os incomodou com os seus problemas. À sua esposa nunca levantou a voz, aos filhos nunca levantou a mão. Nunca respondeu torto aos pais, nunca deixou de cumprir os conselhos dos mais velhos. Nunca fumou, nunca bebeu, nunca se divertiu em demasia. Foi sempre ordeiro e respeitador, nunca faltou ao cumprimento das leis e deveres.
Os seus amigos diziam dele que era um homem às direitas, os vizinhos chamavam-no uma pessoa muito honrada. Nas costas todos o tinham como a criatura mais aborrecida à face da terra.
Um dia, quando justino voltava do trabalho, encontrou a mulher na cama com outro homem, não querendo armar um escandalo, afastou-se surrateiramente e saíu de casa sem ser notado. Há porta do prédio encontrou os seus filhos a consumirem heroína, ouviu horrorizado os filhos a dizerem que o faziam porque não queriam um dia ser como ele.
Nao sabendo ao certo o que fazer, meteu-se no automóvel, mas tendo excedido pela primeira vez na vida o limite de velocidade ao passar a 95 numa estrada de limite 90, deixou o carro derrapar numa curva onde um camião tinha largado óleo. Envolveu-se num terrível acidente em que faleceram dois peões que passavam ao lado da estrada. Quando acordou, um mês depois, estava preso a uma cadeira de rodas, todas as suas poupanças haviam sido gastas a pagar indeminizações às famílias das vítimas. Telefonou à mulher, que vivia agora com um produtor de filmes pornograficos que colecionava BMWs e tinha uma vivenda no Estoril, mas esta desejou-lhe apenas boa sorte e pediu-lhe para nunca mais a voltasse a incomodar. Os filhos, agora heroínomanos sem retorno, disseram-lhe que contasse com eles quando necessitasse de uma autorização para lhe desligarem as máquinas.
Quando teve alta do hospital, sem dinheiro, sem sítio para onde ir e sem direito a ajudas do estado devido às suas dívidas para com o hospital, procurou abrigo debaixo de uma ponte. Quando, no meio de uma chuvada, os sem abrigo o expulsaram daquele local por ser "o pouso deles", disse pela primeira vez na vida: "Porra, puta de vida". Matou-se no dia seguinte, lançando-se para a frente de um comboio apesar da culpa que sentia por ir perturbar a vida dos passageiros da CP.
Ninguém compareceu no funeral.

Contradições

The lonelier I get the more I feel like being alone.

sábado, julho 29, 2006

Sem Surpresas

No caminho para Portugal, passei um dia em Barcelona, foi a minha primeira visita a capital da Catalunha e fiquei bastante bem impressionado, aliás, com muita vontade de lá vontar com mais tempo para desfrutar dos encantos da cidade.
A vida cosmopolita da cidade fez-me de imediato recordar um excelente filme passado em Barcelona, "A Residência Espanhola". No filme há uma música dos Radiohead que surge surrateiramente em vários momentos importantes, discretamente, sem se fazer notar. Tal como na vida do protagonista, também na minha vida esta música parece surgir por vezes, sorrateiramente, e por isso aqui fica with "No Surprises".

A heart that's full up like a landfill,
a job that slowly kills you,
bruises that won't heal.
You look so tired-unhappy,
bring down the government,
they don't, they don't speak for us.
I'll take a quiet life,
a handshake of carbon monoxide,

with no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
Silent silence.

This is my final fit,
my final bellyache,

with no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises please.

Such a pretty house
and such a pretty garden.

No alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises, please.


Do que eu precisava era de uns tempos de puro descanso, sem fazer nada e, sobretudo, sem pensar em nada. Silence... no alarms... no (bad) surprises... please!

quinta-feira, julho 27, 2006

Back in White

Parem as rotativas, cancelem os matutinos porque a notícia de ultima hora chegou às redacções. O Inevitavel Insatisfeito chegou a Portugal, acentando por hora arraias na bela localidade de Caldas da Rainha com passagem nas próximas horas pela Foz do Arelho onde exibirá o seu corpo atrozmente branco.
As saudades eram muitas, mas em apenas meio dia em Portugal já me lembrei de três coisas que me dão vontade de fugir já para a Holanda: eucaliptos onde antes haviam sobreiros, tias na televisão e o José Carlos Malato, seguidas de perto pelas notícias da silly season lusa e pela avalanche de possiveis contratações do Benfica. Enfim, nada que um mergulho refrescante no oceano não faça esquecer.

quinta-feira, julho 20, 2006

Looks familiar?

Farto...

Estou farto de ligar a televisao e ver que Israel continua a matar arabes impunemente...

Estou farto de ligar a televisao e ver que o Hezbolla e outras confederacoes arabes continuam a incitar Israel a violencia...

Estou farto de ver politicos a enganarem os seus povos com odios faceis e outras falacias historicas...

Estou farto de ver os EUA a apoiarem a violencia um pouco por todo o mundo, desde que favoreca os seus interesses...

Estou farto das demagogias e falsidades do conselho de seguranca da ONU...

Estou farto de ver o Bush, sentado numa cadeira com poder sobre milhares de ogivas nucleares, a criticar as brincadeiras infantis da Coria do Norte com misseis de medio alcance...

Estou farto de ver o povo coreano a morrer a fome sob o poder de um louco que prefere ver o seu povo morrer a abdicar das suas loucuras de poder...

Estou farto de ver o mundo a baixar as calcas perante cada apetite imperialista americano...

Estou farto de ver guerras interminaveis em Africa, que ja nem sao motivo de noticia, criadas, geridas e potenciadas pelos mesmos que falam abertamente da necessidade de combater a pobreza nesse continente...

Estou farto de ver a Europa algemada por ideologias politicas ultrapassadas que acreditam que a economia das nacoes e mais importante que o bem estar e a liberdade dos seus cidadaos...

Estou farto de xenofobias e racismos...

Estou farto de ver Portugal inteiro a arder em cada Verao sem que ninguem sequer admita que as causas e solucoes sao bem conhecidas mas nao sao do interesse dos poderosos...

Farto...


P.S. Peco desculpa pela ausencia de pontuacao... teclado holandes!

(Bad) Luck

Esta musica dos Radiohead tem passado com frequencia na playlist pseudo-aleatoria do meu MediaPlayer. Alienado da realidade enquanto analiso incontaveis videos com passaros, apanhamo-me a decifrar as letras das musicas. "Lucky".

Lucky
I'm on a roll,
I'm on a roll this time
I feel my luck could change.

Kill me Sarah,
kill me again with love,
it's gonna be a glorious day.

Pull me out of the aircrash,
Pull me out of the lake,
'cause i'm your superhero,
we are standing on the edge.

The head of state has called for me by name
but I don't have time for him.
It's gonna be a glorious day!
I feel my luck could change.

Pull me out of the aircrash,
Pull me out of the lake,
'cause i'm your superhero,
we are standing on the edge.

We are standing on the edge.


No fundo, nao andamos sempre todos a espera que a nossa sorte mude?

segunda-feira, julho 17, 2006

Return Home

Regressado da Islandia.
Uma semana quase perfeita, repleta de paisagens extraordinarias e momentos muito divertidos, pulvilhados por algum trabalho tambem. Logo que possivel apresentarei aqui algumas muitas fotografias que tirei por la. Na verdade bastaria andar de olhos fechados a tirar fotos aleatoriamente que era dificil mesmo assim nao tirar fotos magnificas.
De regresso a Groningen e de regresso ao trabalho. Brevemente o "bliss" da viagem a Islandia passara e poderei regressar aos habituais posts psico-depressivos. Por hora estou demasiado satisfeito para escrever esta Inevitavel Insatisfacao...
Deixo alguma poesia islandesa:

Íslands minni
Þið þekkið fold með blíðri brá,
og bláum tindi fjalla,
og svanahljómi, silungsá,
og sælu blómi valla,
og bröttum fossi, björtum sjá
og breiðum jökulskalla ---
drjúpi' hana blessun drottins á
um daga heimsins alla.


ou em ingles...


A Toast to Iceland
Our land of lakes forever fair
below blue mountain summits,
of swans, of salmon leaping where
the silver water plummets,
of glaciers swelling broad and bare
above earth's fiery sinews ---
the Lord pour out his largess there
as long as earth continues!

Jónas Hallgrímsson

quinta-feira, julho 06, 2006

Islândia

Eis onde eu vou estar na próxima semana. Espero que o ar frequinho e o Sol da meia noite ajudem a arejar as ideias!

In the Dead Cock of Night


Hoje acordei com uma vontade irresistível de depenar, torturar e eventualmente matar galináceos, especialmente os de cor azul...
Será que Freud saberia explicar esta psicose?

terça-feira, julho 04, 2006

Sera?

You can't always get what you want
You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometimes well you just might find
You get what you need

The Rolling Stones

domingo, julho 02, 2006

Grão a grão...

Bem, mais uma vitória sofrida de Portugal, mais um jogo em que eu me infiltrei nas hostes do inimigo. Vi o jogo com amigos ingleses, num bar em que eu era o único portugues, rodeado de bifes e de um holandês (naturalmente a torçer contra Portugal). Únicas aliadas, uma italiana que defendia alguma solidariedade mediterrânica (apesar de manter um certo low-profile porque o namorado é inglês) e uma romena que gosta do Figo!
Na verdade, não achei o jogo emocionante, pelo contrário, achei-o bastante aborrecido, os 120 minutos arrastaram-se sem grandes motivos de excitação e a meio do jogo já parecia óbvio que ía acabar em penaltis. Nos penaltis sim, finalmente alguma emoção, mas o nosso Ricardo é aquela máquina e lá vamos nós jogar com a França o acesso à final.
Mas mais uma vez, tenho de dar os parabéns ao fair-play do adversário. Na verdade a parte divertida do jogo foi a conversa com os ingleses e depois todos me vieram cumprimentar no final e, agora que se sabe que é a França o adversário, podemos contar com todos os ingleses a puxar por Portugal nesse jogo. Infelizmente tive de rejeitar algumas das muitas bebidas que todos os ingleses me quiseram pagar no final do jogo... de outra forma dificilmente teria sido capaz de manter a bicicleta direita no regresso a casa!
Grão a grão enche a galinha o papo, jogo a jogo lá nos vamos safando... vamos a ver até onde Portugal consegue chegar!

quinta-feira, junho 29, 2006

De deus, da ciencia e do Imperio do Mal

A mera associação das palavras deus e ciência na mesma frase pode ser suficiente para deixar arrepios na espinha de muito boa gente. Desde há séculos que a escolástica religiosa teme profundamente a ciência moderna, vê-a como o inimigo, o mal que pode deixar por terra o edifício poderoso que construíram ao longo de quase duas dezenas de séculos de poder eclesiástico. Por seu lado, a ciência vê por vezes com suspeição as crenças religiosas, tendo-as como perniciosos processos mentais que afastam os intelectos da verdadeira compreensão da realidade. Pois, se a religião tem provavelmente razão para temer a ciência, uma vez que todo o poder da religião se baseia no medo do desconhecido e a ciência exulta-se em cada dia na aventura de iluminar a infinita escuridão da ignorância; já a ciência deve aceitar este tema como um assunto de investigação tão interessante como todas as outras miríades de questões que povoam o Universo. Apenas deve ser clarificado um ponto, toda a boa ciência se deve basear em perguntas correctamente colocada e no que respeita a deus, a pergunta que se coloca é quase sempre uma pergunta errada: Existirá deus? Trata-se de uma ideia cuja falsidade é impossível de provar, pelo que não faz sentido, num referencial científico, pergunta-la. A pergunta correcta, aquela que nos permite uma reflexão inteligente sobre um dos mais interessantes fenómenos sociológicos da humanidade é: como surgiu a crença em deus?
Trata-se de uma formulação diferente, uma busca de causalidades temporais, aparece aqui o resultado de um processo mental novo que a ciência ofereceu à humanidade. A ideia mais genial que saiu dos cânones da ciência moderna foi provavelmente o evolucionismo darwiniano, a evolução por selecção natural. Uma teoria inacreditavelmente simples, de uma elegância extrema, que não revolucionou apenas a Biologia, o ramo da ciência que a viu nascer, mas cujas repercussões se fizeram sentir em todos os campos da ciência e que, de certa forma, revolucionou todo o arcaboiço do pensamento humano. A teoria em si é hoje usada em campos tão diversos como a cosmologia, a física de partículas ou a química orgânica, mas a sua grande dádiva não foi a evolução em si, pois esse é um conceito com já mais de dois mil anos, nem foi mesmo essa selecção natural com que Darwin maravilhou o mundo biológico. O grande avanço que nasceu com o evolucionismo darwiniano foi o pensamento evolucionista, mas do que uma teoria, mais do que uma ideia ou um ideal, trata-se de uma forma de organizar o nosso pensamento, uma maneira de colocar as questões, uma forma de procurar respostas nos padrões da Natureza. É pois natural que eu, um biólogo que, como todos os biólogos modernos, trabalha diariamente com a ideia de evolução sempre a regular a minha compreensão da realidade, olhe para toda a questão da crença humana em deus e pergunte: como é que tudo isso começou? No fundo é a velha questão do ovo ou da galinha, terá sido deus a criar o homem ou o homem a criar deus? Do meu ponto de vista, mesmo sem aprofundar muito a questão, rapidamente se torna obvio que só a segunda hipótese faz sentido. Em ultima análise, foi a ciência que criou deus.
Neste momento, deixei de me referir à ciência no sentido estrito, na versão moderna do empirismo experimentalista de Bacon e Locke, passando a chamar ciência a algo de mais vasto, a todas as iniciativas do homem para preencher essa ansiedade básica que nos parece consumir desde o inicio da nossa consciência, a eterna procura pela compreensão da realidade que nos rodeia. Talvez fosse mais correcto chamar filosofia a essa busca primordial pelo conhecimento, pois se quisermos ser precisos só passamos a ter ciência depois de postulado o todo poderoso método cientifico. Do meu ponto de vista, filosofia ou ciência são duas faces da mesma moeda, a mãe e a filha se quiserem, ao que eu me quero aqui referir com ciência é a essa característica tão humana de procurar uma explicação para tudo o que nos rodeia. Assente esta questão, como foi então que o homem criou deus? Já todos ouvimos esta história, o homem vivia na sua caverna, ou na sua pequena povoação de barracas de argila, ou quando quer que tenha sido que a coisa aconteceu. E vivia atemorizado, sem compreender tudo o que o rodeava… Enfim, na minha opinião não vivia aterrorizado, apenas sentia curiosidade, a mais bela das nossas virtudes. Nunca saberemos como aconteceu, mas foi provavelmente numa conversa à beira de uma fogueira, numa noite algures na mesopotâmia, ou na Europa, ou até em África, que um homem, ou porque não uma mulher, com um pouco mais de imaginação, lançou à discussão uma ideia que tinha matutado na véspera enquanto guardava as ovelhas ou colhia frutos para o jantar: e se existirem seres poderosos, mas invisíveis, que controlam a Natureza? Era naturalmente uma ideia com pernas para andar, existiam tantas coisas incompreensíveis na Natureza. À volta deste homens primordiais a vida passava-se regida por ciclos de uma precisão inabalável, as marés, as estações, os ciclos de vida das plantas e dos animais, o tempo, até o corpo humano, as doenças, a gravidez, os ciclos menstruais das mulheres, o próprio envelhecimento, o nascimento… e claro, a morte, a dúvida primordial, o temor original. Fazia todo o sentido, todas estas coisas que não compreendemos são fáceis de aceitar se as atribuirmos aos poderes infinitos de seres desconhecidos que existem para lá da nossa compreensão, seja no céu, numa montanha longínqua ou nas profundezas inacessíveis do oceano.
A partir daqui a história conta-se por si. Todos nós já passamos pela experiência de estar a conversar com amigos e rapidamente criar toda uma realidade paralela imaginária, idealizar viagens imaginárias, planetas de sonhos, aspirações a vidas extraordinárias ou a existências diferentes. Dêem alguns milhares de anos à imaginação humana e a profundeza e beleza artístico-literária das mitologias politeístas greco-romanas não parecem sequer algo de tão complicado. Quem já conversou com uma criança de três anos sabe que não existe nada de mais poderoso que a imaginação humana.
Tudo isto seria uma história bonita para contar aos netos, se não tivesse entrado em cena uma luta antiga nesta história. Não, não estou a falar na luta entre o bem e o mal, estou a falar na verdadeira luta que rege toda a história das sociedades humanas, a luta entre o poder e a liberdade. Os seres humanos gostam, de forma geral, de ser livres, infelizmente gostam também de ter poder sobre os outros seres humanos, retirando-lhes a sua liberdade. Porquê? Biologia comportamental básica. Os nossos genes gostariam que nós deixássemos muita descendência, mesmo que nós próprios por vezes não tenhamos o mesmo ímpeto. Poder, desmontando todo o seu significado social, reduz-se a uma verdade biológica básica: nos machos, poder significa acesso a mais fêmeas, nas fêmeas, poder significa acesso a mais recursos. Em ambos os casos significa maximização da probabilidade de deixar descendência na próxima geração, exactamente o que os nossos genes, que já o Richard Dawkins dizia que eram egoístas até ao âmago, querem. Deixando para trás este à parte biológico, volto à história base. Existe uma luta constante entre poder e liberdade nas sociedades humanas e essa luta começou a certo ponto a usar as crenças divinas como armas.
Existem muitas formas de exercer poder sobre outrem. Através da violência, através da chantagem, através da superioridade intelectual, através da superioridade económica, através da diplomacia, entre outras. Num determinado ponto da nossa história, alguém percebeu que a forma mais eficaz de exercer poder sobre outrem é a crença. Se convencem alguém a acreditar em vocês esse alguém é vosso. Esse alguém irá fazer aquilo que lhe pedem pois acredita. Acredita que está a fazer o melhor para si próprio. Foi assim que nasceram religiões organizadas, surgiu o poder pelo controlo das crenças das massas. E não é coisa pouca, ainda à menos de um milénio atrás o Papa era o homem mais poderoso do mundo, ainda seria assim se não tivéssemos vivido um renascimento, se a pouco e pouco o conhecimento não tivesse a pouco e pouco iluminado a escuridão imposta pela igreja católica a toda a Europa. Mas lá chegaremos…
Estava eu a falar do politeísmo greco-romano. As coisas corriam bem para as religiões politeístas, até ter surgido o monoteísmo. De repente, em vez de toda uma multitude de deuses e divindades, alguém sugeria que afinal poderia existir um único deus. Mais simples, as pessoas poupavam nas oferendas, em vez de oferecerem um carneiro ao deus da agricultura, um porco ao deus da saúde e uma vaca ao deus da riqueza, podiam oferecer qualquer coisa a apenas um deus. Claro que no que diz respeito à luta pelo poder tratava-se de mais um passo corajoso. Estamos a falar de poder único e incontestado sobre toda a humanidade. Não estou a dizer que todos os profetas que professaram o monoteísmo faziam parte de uma conspiração para enganar toda a humanidade, provavelmente todos eles acreditavam realmente no que diziam. Há algo de curioso nas crenças humanas, se acreditarmos em algo com fé suficiente acabamos por ter a certeza que é real, reparem como tanta gente acredita piamente que Portugal pode ganhar o Campeonato do Mundo… Os seres humanos são fruto da sociedade que os rodeia, do que aprenderam e das experiências que viveram. Penso que esses profetas acreditavam realmente no que professavam. Estando a humanidade já ancestralmente sob sistemas de crenças divinas, o salto entre politeísmo e monoteísmo foi uma questão de eficácia e de carisma daqueles que o professaram. E sabemos que alguns eram realmente carismáticos, houve até dois ou três, um tal de Jesus Cristo, um tal de Maomé, entre outros que ainda hoje têm poder sobre a vida de milhares de milhões. A prova de que estes profetas eram honestos e não estavam interessados no poder de controlar a humanidade é o facto de não terem sido eles a criar as suas igrejas. Jesus Cristo nunca criou a igreja católica, na verdade, o que ele professava ia profundamente contra os ideais da igreja, dizia ele que deus vivia dentro de cada homem, não havia necessidade de uma igreja para por o homem em contacto com deus, cada homem tinha esse poder através da fé e do amor. Como não sei quase nada sobre o Islão, vou agora reduzir o âmbito deste texto aos limites geográficos do catolicismo. Falemos então do Império do Mal do título, esse instituição que vez mais e pior pela humanidade que qualquer outra em toda a nossa história, esse artefacto que fez mais pela limitação da liberdade do homem que qualquer regime totalitário, o erro primordial do mundo greco-romano, o verdadeiro pecado original, a sagrada igreja católica.
Quando surgiu então essa maldição da humanidade? Já o referi, Jesus Cristo não teve qualquer responsabilidade no assunto, aliás, a serem verdadeiros os famosos escritos que se diz terem sido escondidos pela igreja católica, que contém o verdadeiro evangelho de Jesus Cristo, ele dizia explicitamente que não deveria ser criada uma igreja para professar os seus ensinamentos. O suspeito do costume foi Pedro, o apóstolo mor, segundo reza a crença o primeiro Papa da igreja católica. Até pode ter sido, mas a verdadeira igreja católica, como a conhecemos hoje, a maquina infernal que sentenciou a Europa a dez séculos de escuridão e ignorância e foi quase bem sucedida no seu plano maquiavélico de exterminar a liberdade da humanidade, essa apenas surgiu alguns séculos depois. A igreja católica como instituição nasceu em 325, no concílio de Niceia, sob ordens do Imperador Constantino, aquele que reza a história ter sido o responsável pela conversão do império romano ao catolicismo. A verdade é bem menos nobre. Nos tempos de Constantino, o império romano era grassado por uma onda de violência social. As causas eram as habituais, as desigualdades sociais, eram os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Entre as camadas mais desfavorecidas, as ideias cristãs de igualdade entre todos os homens encontravam aceitação natural, num conceito socio-económico diferente teríamos de lhes chamar comunismo… Para apaziguar o povo, num manobra de incrível inteligência e premeditação, Constantino e os seus consortes idealizaram um plano intocável para exterminar a rebelião e recuperar o controlo do seu império. Bem conhecedor do poder que a crença tem sobre os homens, Constantino decidiu converter o seu império ao catolicismo, mas não ao catolicismo no sentido dos ideais liberais e progressistas professados por Cristo. O concílio de Niceia foi levado a cabo para criar de raiz a instituição que iria controlar os desígnios da Europa no milénio seguinte, todo o edifício de crenças, rituais, simbologias e distribuição de poderes que ainda hoje associamos à igreja católica nasceram nesse ponto preciso no tempo e no espaço. Nascia o único e verdadeiro Império do Mal. Até a cruz, o símbolo milenar do catolicismo nasceu no concílio de Niceia, até aí os seguidores de Cristo usavam um peixe como símbolo, o símbolo de Pedro, o pescador. É toda esta falsidade, até na sua origem, que me repugna na igreja católica.
O plano funcionou na perfeição, o povo caiu na armadilha. O símbolo do poder máximo na Europa espalhou-se rapidamente, primeiro no império romano, depois pelas terras bárbaras. O plano de Constantino funcionara, até bem de mais, o Papa, o novo poder imperial de Roma, tinha a população da Europa a seus pés. Nos milénios seguintes a igreja dedicou-se a consolidar o seu poder, destruindo, queimando, arrasando e assassinando todas as fontes de sabedoria que lhes pudessem fugir à censura e permitissem ao povo fugir ao seu controlo. A estupidez e a ignorância sempre foi a melhor forma de manter o povo sob controlo, até o nosso Salazar sabia bem disso. As cruzadas garantiram que os conhecimentos científicos greco-romanos, mantidos vivos pelos povos árabes, ficaram bem longe da Europa até ao século XIV, as “bruxas” eram perseguidas porque divulgavam conhecimentos básicos sobre plantas medicinais e outros saberes naturais que a igreja considerava perigosos. A inquisição perseguiu muitos dos primeiros verdadeiros cientistas nos primeiros séculos após o renascimento e mesmo nos tempos de Darwin, já bem perto do século XX, o degredo social a que as opiniões opostas às da igreja podiam forçar os pensadores levaram o grande naturalista britânico a ponderar longamente a decisão de expor a sua teoria revolucionária.Chegamos por fim à conclusão do raciocínio, a linha evolutiva que regeu as crenças da humanidade pode ser por fim resumida a um pequeno conjunto de relações de causa efeito: a ciência (lato sensu) criou deus, o desejo de poder criou a igreja, a igreja escravizou o homem, mas o desejo de conhecimento do homem nunca pode ser completamente escravizado, o sonho fez renascer a ciência (stricto sensu), a ciência tenta agora corrigir o seu erro original.

quarta-feira, junho 28, 2006

As pazes com o portugues

O dia amanhece cinzento. Uma chuva pressistente borrifa as janelas com o desdem das ondas que se esmagam numa falesia distante. Dolorosamente, a vontade ultrapassa a preguica e o corpo renuncia aos prazeres de almofadas fofas e edredons quentes. O toque confortavel da agua quente do duche, antecipa o toque mais aspero da fria lamina de barbear, uma gota de sangue unica rola pela face como uma lagrima chorada sem sentido.
Um suspiro largado sem pensar, o copo de leite morno tragado como um comprimido. Um breve vislumbre pelas noticias do dia antes de enfrentar de queixo levantado a humidade de mais um dia que comeca cansado.
Um salto para o selim da bicicleta, as primeiras pedalas saem lentas, moles como as pernas. A pouco e pouco o corpo entra no ritmo, o ar comeca a bater fresco na cara e o tropor afasta-se lentamente da mente. Pedalando sem pensar, a mente deambula, afasta-se do corpo e viaja em todas as direccoes. Sem pensar muito nisso, as ideias alinham-se o cerebro reencontra-se. Timidamente, o dia comeca finalmente.
Dedos que teclam, martelam suavemente o teclado com a raiva de um pianista, com a docura de um baterista. As horas passam-se e o ecra do computador preenche a realidade. Segundos de distracao, minutos passados a completar mecanicamente as tarefas necessarias, o espirito saltita entre a exaltacao e o desalento. Os relances lancados na direccao do relogio multiplicam-se, a hora do almoco aproxima-se com a lentidao de uma vaca a pastar nos campos.
Chega a hora de almoco, a distracao exigida pelo cerebro amorfo, a satisfacao pedida pelo estomago insatisfeito. Conversas mastigadas por entre o lento processar da comida. Risos, diversoes, opinioes, dicussoes. Entre duas dentadas num croquete, a mesa de almoco ve nascerem teorias, ideias, ideiais. Dicussoes em varias linguas, o ingles dominante ve-se ameacado pelo espanhol incipiente, o frances e o alemao tem a sua palavra, ate o portugues se aventura na forma de verbos e adjectivos, enquanto um ruido de fundo relembra a presenca dominante do holandes.
Satisfeito o corpo, complemeta-se a refeicao com alimentos para a mente. Planos de actividades, uma visita a um novo bar, um ajuntamento para assistir a um jogo de futebol, idas ao cinema. No regresso ao encarceramento da maquina o cerebro sente-se agora livre, com espaco para voar. Agora tem algo para esperar. No fundo de um milhao de ideias, nasce um pequeno plano, uma distracao final antes do regresso ao trabalho. Que tal tentar apaziguar o portugues...

Insatisfacoes

I just don't get it, really. Maybe I just missed the point completely!

domingo, junho 25, 2006

Portugal 1 - Holanda 0


Muitas emoções, cartões, expulsões e outras coisas acabadas em ões, como por exemplo o nome que me apeteçeu chamar aos senhores da equipa de arbitragem... Enfim, custou mas foi, a laranja mecânica mais uma vez avariou contra a armada lusa e deixou-me com o dilema: que fazer quando somos o único tuga no meio de tantos holandeses desiludidos... ainda por cima com uma camisola da selecçcão nacional vestida!
Pois, mal o jogo tinha acabado despedi-me dos amigos holandeses com que vi o jogo, custava-me um bocado estar contente quando eles estavam tão tristes. Já sozinho e sem esses problemas morais, decidi festejar à melhor maneira tuga. Na ausência de uma Praça do Marquês de Pombal onde ir buzinar com o carro, peguei na bicicleta e fui até ao Grotte Markt, a praça central de Groningen e pedalei à volta da praça enquanto "buzinava" a campainha da bicicleta, com a camisola da seleçcão vestida. Um sucesso! As caras com que os holandeses me olharam eram impagáveis. Deve ter-lhes parecido um daqueles sonhos surreais que parecem tirados de um quadro do Dali... ali estavam eles a ressacar um derrota sofrida da equipa deles e aparece-lhes pela frente um marmanjo de camisola de Portugal vestida, debaixo de chuva e trovoada, a dar à campainha da bicicleta às voltas no Grotte Markt. Lindo, lindo, lindo!

Acabei de chegar a casa e de me enxugar, que por aqui chove a cântaros, mas hoje vou dormir com um sorriso bem maroto nos lábios!

sexta-feira, junho 23, 2006

Female Course

Final examination

Start by ripping out the heart of the subject with a quick jab.
Squeeze out de extra blood.
Smash it with a strong punch.
Cut it to small pieces with a sharp knife.
Place the pieces in a liquifier and press on.
After 5 minutes, add concentrated sulphuric acid.
Wait another 5 minutes and add alcohol and a burning match.
Collect the remains and placed them in the original place, in the chest of the subject.
Finalize by saying: "I still think of you as a very good friend".
If the procedure worked, the subject should now smile and say something like: "that's OK, it's not your fault, you don't have to feel bad about this".

Congratulations, you are now A WOMAN.


P.S. Este post e dedicado ao meu amigo Miguel (que vai ler mas nao vai comentar) e as suas "amigas"...

quarta-feira, junho 21, 2006

Diálogo esquizofrénico


Slowly but efficiently, the english language creeps into my thoughts...
Não é que eu tenha deixado de gostar do português, muito pelo contrário...
But everyday I speek in english... slowly, everynight I dream in english...
O português é uma lingua magnifica, bem mais bela que o inglês...
But english is more practical, precise, efficient. It is just easier...

Há uns meses atrás, sentar-me à frente do computador e escrever um texto em português era a coisa mais fácil do mundo. As palavras fluiam naturalmente, não era necessário sequer pensar muito.

Now, I look at the computer screen and he seems to demand that I use the english language, the language that I now use everyday, my working language, my living language, even my feeling language. I now find my self swearing in english, thinking in english, I start wondering which is my true natural tongue.

O português é mais lírico, mais sonhador. Mas eu não sou poeta nem escritor. O meu cérebro refugia-se nos caminhos que lhe são mais fáceis, nas palavras que lhe são mais familiares.

Slowly but efficiently, the english language creeps into my thoughts...

segunda-feira, junho 19, 2006

Rollercoaster

Goes up, comes down, turn left, turns right. Faster, faster, slower, slower. Slowly it starts feeling a bit safer, only to change speeds again, leaving the heart pumping and the mind completly lost.
It keeps spining around like a rollercoaster, looping and turning and spinning. One moment so sure of the way, the next so lost in all that comotion.
Puzzles the sences, loses the mind.

sábado, junho 17, 2006

Portugal 2 - Irao 0


Bem vindos ao meu primeiro post sobre o Mundial 2006. Pois sim, parece que os tugas la ganharam a unica seleccao com mais historial na arte de bater em mulheres que a seleccao das quinas. Dois - zero e mais uma exibicao miseravel, como se quer nestas competicoes, que se uma equipa comeca a jogar melhor as outras juntam-se logo para lhes fazer a folha.
Agora que o apuramento para a fase seguinte esta garantido, umas perguntas profundamente filosoficas para o Felipao: "Cara, me explica, que raio esta o Costinha fazendo em campo 90 minutos, para que dois trincos contra o Irao e porque razao estao o Tiago, o Simao e o Hugo Viana no banco?"

Enfim... duvidas existenciais. A minha outra duvida existencial e sobre quem quero que calhe a Portugal a seguir. Restam duas hipoteses a Holanda e a Argentina. A Argentina parece ser a melhor equipa da competicao, dava jeito nao os apanhar-mos ja, por outro lado, se calha a Holanda e nos ganhamos, considerando a densidade de bandeiras laranja na minha rua (a garbosa Kamperfoliestraat) e a matricula portuguesa no meu carro, nada de bom se augura para mim... Ja me estou a ver a ser perseguido por uma horda de holandeses em furia pela rua a baixo!